NENHUM LUGAR [Iara Freiberg]

Eu serei o seu espelho; não serei o seu reflexo, mas o seu engano. Jean Baudrillard

 

Por diversos anos a investigação plástica de Iara Freiberg vem se desenrolando sobre um escopo de interesses bem reduzido: seu assunto básico tem sido sobretudo as relações contidas no binômio arquitetura e percepção espacial, e suas possibilidades de articulação mediadas pelo desenho e outros meios. Sua obra de modo geral instiga a ativação de uma nova dimensão perceptiva de seu entorno, agregando camadas de “sentidos outros” aos espaços em que atua.

A temática espacial, filtrada e conjugada pelas possibilidades acenadas pelo vocabulário arquitetônico, é seu mote de trabalho, a partir do qual a artista desenvolve diferentes formalizações. Seu modo de atuação mais característico se pauta em intervenções realizadas em espaços internos [contextos institucionais] ou externos [contexto urbano], com desenhos[1] realizados diretamente sobre superfícies da estrutura arquitetônica em questão ou realizados a partir da aplicação de vinil adesivo ou tinta [sempre em preto ou amarelo] sobre as mesmas. Tais ações desenvolvem-se a partir de um repertório formal a um só tempo simples e sofisticado, marcado por uma geometrização rigorosa e onde um emprego bastante personalista das regras da perspectiva, que conhece bem, tem peso decisivo. São executadas de modo a gerar ou indicar sempre algum tipo de ruído ou tensionamento perceptivo de características do local que as recebe, esboçando tipologias inéditas para o lugar e sugerindo expansões e continuidades ficcionadas, sempre partindo das características físicas do próprio. O procedimento do desenho – e sua lógica construtiva inerente – é estrutural em seu modus operandi, ainda que ele possa manifestar-se também transposto em outros meios, como o vinil adesivo. Sua prática poderia ser referida como a da criação de algo como meta-arquiteturas: manifestações plásticas que comentam, pontuam ou geram reflexão sobre os elementos físicos/espaciais e simbólicos do próprio local onde – ou sobre o qual – a artista opera.

Dado o caráter algo disruptivo de suas peças, não raro realizadas “na oblíqua” das expectativas expositivas convencionais, o termo intervenção tem sido frequentemente associado à pesquisa espacial de Iara. E, embora talvez nem sempre seja o mais adequado, de modo geral ainda é o que melhor traduz ou comporta sua principal estratégia de expressão artística. Suas peças parecem dotadas de uma curiosa ambivalência: se são originalmente movidas por uma pulsão em alguma medida reativa ao lugar, por outro lado acabam por desenvolver uma espécie de qualidade de intimidade com o mesmo, em suas formalizações diversas: insinuando-se, distendendo-se, disseminando-se, cavando fissuras, “contaminando” o ambiente e instaurando, conforme o caso, uma espécie de fricção afetuosa ou um ruído silencioso, à espera de ser percebido.

A instalação que a artista agora apresenta nas galerias da Funarte de São Paulo não deixa de ser uma guinada em relação a seus projetos anteriores, sobretudo no que se refere à formalização do trabalho – que, à parte este dado, mantém pontos de conexão com seu já característico interesse pela experimentação com a espacialidade. Nenhum lugar é constituída por imagens fotográficas em grande formato revestindo quase que totalmente as paredes da sala, tendo sido produzidas sob medida para esta sala a partir de fotografias anteriormente capturadas pela artista e retrabalhadas com tratamento digital. As imagens retratam vistas internas de um vasto espaço desolado, talvez um galpão de uma fábrica desativada; o ângulo escolhido é o do observador que se encontra dentro do espaço, encarando suas janelas, muitas janelas, por onde se projeta intensa luminosidade para o interior deserto. São todas realizadas em preto-e-branco e aplicadas diretamente sobre as paredes à maneira de cartazes “lambe-lambe”; a “luminosidade interna” das imagens é valorizada pela ambientação escurecida do ambiente.

Ao contrário de suas peças mais conhecidas, trata-se agora definitivamente de uma instalação, o que se percebe desde a clara intencionalidade na adequação das imagens ao ambiente que as comporta. Diferentemente de seus desenhos-intervenções, que contaminavam o espaço por vezes quase clandestinamente, aqui a ideia é investir no aspecto sensorial de maneira mais objetiva e imediata, “absorvendo” o visitante. Ao revestir as paredes da sala com as imagens ampliadas de modo a acompanhar sua escala, Iara visa convocar algo como uma “experiência de virtualidade analógica”, acrescendo uma camada de imagem – e dos simbolismos inerentes à fotografia – ao espaço expositivo real a fim de intensificar a percepção do contexto. Elemento recorrente num repertório alimentado pelo intenso convívio da artista com os excessos da arquitetura urbana metropolitana, esse espaço imaginário proposto – esse lugar nenhum – procura, por outro lado, evidenciar a relação com o real e o pôr em questão, tornando o espaço em objeto, e convidando o espectador a uma breve experiência de suspensão – do tempo, dos sentidos, das certezas.

Do ponto de vista da lógica interna da produção de Iara, o diferencial aqui estaria sobretudo na mudança de registro tanto do componente projetivo-ilusionista como das características do lugar como instância fundadora para seus projetos, fatores tão presentes em sua obra. A fotografia, ainda que normalmente não conste no espectro de questões da artista como um fator a se ressaltar, entra em jogo simultaneamente como elemento constitutivo da “ambientação” e veículo ativador dessa nova dimensão sensorial que a artista decide explorar. A busca agora é por um efeito ilusório não da ordem de um alargamento perceptivo ficcionado do espaço em termos, digamos, arquitetônicos, no sentido de evidenciar ou comentar determinados aspectos de sua morfologia, mas um que convoque o espectador em outra medida, mais intensa e imersiva, embora ainda em certa medida virtual: o componente visual é aqui apresentado na relativa concretude da imagem fotográfica de um referencial “real” externo [janelas, luz] trazido para o espaço interno do “cubo branco”. Visa-se assim a instauração de um outro grau de experiência estética, com a aposta em um jogo de inversão do que está fora e do que está dentro; e em que se solicita a corporalidade, aliada à contemplação, como um agente ativo no processo de fruição poderia-se dizer ativação – da obra.

Imagem

Se em obras como Invasão [2011] Iara Freiberg anunciava um movimento de expansão dos limites da experiência visual/espacial do local – ali paradoxalmente acionado por um movimento de encolhimento da escala, ao escavar um percurso miniaturizado no interior das paredes do equipamento museográfico[2] –, agora este mesmo interesse é assumido de modo mais epidérmico. As imagens que traz para a sala de exposições imprimem um registro perceptivo mais imediato na experiência do trabalho. O mote da ‘invenção de espaços inexistentes’, ou antes da re-invenção dos já existentes segue reafirmado, mas desta vez a estratégia de formalização da artista dá lugar à representação direta pela imagem fotográfica, abrindo mão de suas características ações in situ, tomando o espaço indistintamente. Tal decisão se deveu a seu desejo de alargar as possibilidades de lidar com a representação espacial em sua obra, vendo agora na imagem fotográfica novas possibilidades de investigar um componente tão caro a suas peças – ao invés de suas tradicionais intervenções gráficas aplicadas sobre as paredes. Ao assim fazê-lo, implementa um dado imersivo diverso daquele que habitualmente está presente nas suas peças: aqui, o ambiente físico é convertido a um só tempo em cenário e elemento ativo da proposta, impelindo o espectador a uma experiência sensorial mais imediata. Em Nenhum lugar, trata-se talvez da primeira experiência deste gênero para Iara. A artista aqui lida com o espaço em seu sentido mais convencional, como o locus que recebe a proposta, e não mais como o elemento detonador e determinante, a plataforma a partir da qual e sobre a qual atuar diretamente. Seja como for, não se pode ignorar que o lugar siga tendo um papel ativo, ainda que em outra medida, já que a instalação investe na ideia de uma intensificação da consciência do espaço físico do “cubo branco” a partir do contraponto imposto pelas imagens que tomam a galeria.

Não obstante o mote das questões espaciais estar presente, este trabalho de modo geral parece falar menos à arquitetura que a produção anterior da artista. Apesar de tematizada na superfície [o que se vê é o vasto interior de um prédio e janelas vazando luz], a discussão que se instala é sobretudo a partir da imagem, mediada pela mesma e voltada para ela, e não tanto de espaço – ou ao menos não do espaço arquitetônico enunciado do modo crítico que a produção mais conhecida de Iara habitualmente o faz. Ou, de outra maneira, a arquitetura é mais evocada do que efetivamente invocada ou convocada, como em outros trabalhos da artista. A referência visual alude a um espaço arquitetônico mas ainda é mais imagem do que qualquer outra coisa[3].

Como já observado, o registro usual das intervenções de Iara tende a um movimento de contaminação, no sentido de um desdobramento espacial imaterial que se propaga silenciosamente, impelido por uma pulsão investigativa em torno das estruturas existentes para nelas incrustar silenciosas fissuras. Em Nenhum lugar, ocorreria, parece-me, uma inversão dessa dinâmica; o espaço não é tensionado ou aludido de forma enviesada, mas é, antes, ele próprio palco e suporte da proposição da artista, neste trabalho que afinal é pautado pelo agenciamento de um componente ilusório. Ilusão que, como lembra Baudrillard, “não se opõe à realidade; ela é uma realidade, mais sutil, que rodeia a primeira com o signo de sua desaparição[4]“.

Tópico que pode conduzir a uma breve digressão, à maneira de conclusão. A propósito de uma possível discussão da imagem, associada à lógica projecional do trabalho e ao fator imersivo que a artista conclama para esta proposta, tudo isso incita ao exercício de se pensar em paralelos possíveis com o clássico literário atemporal A invenção de Morel, de Bioy Casares[5]. No romance, um náufrago refugia-se numa ilha onde passa a testemunhar estranhos eventos: depara-se seguidamente com personagens fantasmáticas [chegando a se apaixonar por uma] que mais tarde vem a descobrir serem fruto de uma projeção viabilizada por uma máquina engenhosa. Tudo criação de Morel, cientista que acreditava ter a chave da imortalidade nas projeções de sua invenção. O desfecho trágico é entrevisto quando o protagonista percebe que todas as pessoas que vê naquelas imagens já estão mortas, e que provavelmente será esse também seu destino.

Trata-se de abordagens e graus de pretensão bem distintos em jogo, é verdade; a obra-prima de Casares pode ser lida, superficialmente, como uma parábola sobre a [des]esperança, o amor, a tecnologia e a impermanência, enquanto a peça de Iara claramente não reclama para si tamanhas aspirações, preferindo ater-se a instâncias mais terrenas. Mas podem ser aproximadas se levarmos em conta um fator inerente à natureza humana: certa condição de incompletude, como a que vemos em A invenção… e, de outra forma, intuímos na solicitação implícita no experimento proposto pela artista. E que é essa mesma condição que nos leva afinal a produzir [e precisar] de imagens para a realização de algumas de nossas pulsões elementares, como o desejo e o sonho – no fundo, modos de reafirmação do lugar das coisas, e de nosso lugar nessa ordem.

Guy Amado – Novembro de 2013

[1]A rigor, a artista trabalhou somente até 2007 com desenhos propriamente ditos, aplicados sobre a arquitetura. A partir de então Iara adota um registro gráfico em seus trabalhos a que chama de “marcações”, onde se intensifica um procedimento de geometrização que amortece o registro tradicional da representação. Para efeito deste texto foi por mim adotado um entendimento alargado desta noção de “desenho”.

[2] Em mostra do programa Temporada de Projetos no Paço das Artes, São Paulo, 2011.

[3]Convém lembrar que, se a imagem surge pontualmente investida de importância determinante na constituição deste trabalho, isso não significa que a artista não fizesse uso anterior da mesma. Até por volta de 2007, Iara explora regularmente a figura/imagem em suas pesquisas em torno da representação, realizando projeções de espaços e mesmo séries fotográficas – ensaios visuais – que prenunciam o que será posteriormente transposto para o espaço nas intervenções. Seria então de certa forma um retorno à imagem, embora materializada como fotografia – e não como desenho.

 [4] BAUDRILLARD, Jean. O crime perfeito. Lisboa: Relógio D’água, 1995

[5] BIOY CASARES, Adolfo. A invenção de Morel. São Paulo: CosacNaify, 2006

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s