Jornada Ao Interior da Paisagem ou “The Loneliness of The Long-Distance Runner” [Projeto CEP – Túlio Pinto]

PROJETO CEP – TÚLIO PINTO

Not that every place that is made is art, however; but to make art (which is also to think about it) is to make place.

(Tacita Dean/Jeremy Millar, “Place”)

 

No preto-e-branco gráfico e cuidadoso da película, vemos o jovem correndo. Desloca-se – rapidamente, mas sem pressa – por entre bosques cinzentos, resvalando na vegetação áspera, desviando-se dos galhos mais baixos, alterando seu rumo ao sabor dos instintos. Seus braços por vezes movimentam-se como que a querer apanhar o vento que investe contra seu corpo e revigora sua jornada; é nítido o prazer que o jovem desfruta deste ato. Ele corre porque é o que sabe fazer melhor; corre por inteiro, podíamos talvez dizer. Corre com a intensidade de quem só assim parece sentir-se vivo.

No belo filme britânico The loneliness of the long-distance runner[1], o protagonista Colin Smith é um jovem transgressor – oriundo de uma família proletária disfuncional – cujo grande talento é a aptidão para corridas de fundo. Nesta obra, o ato de correr apresenta-se como um elemento metafórico para veicular com potência a mensagem libertária que perpassa toda a história.A vocação de Smith para correr é um símbolo de seu esforço em enfrentar a adversidade e confrontamento com a autoridade que perpassa sua existência: no presente da narrativa, ele é um dos internos em um reformatório, depois de ser apanhado por um pequeno roubo[2]. Mas afigura-se também como um meio pelo qual escapar a sua condição de confinamento, quando é conduzido a uma situação-limite que irá forçá-lo a um impasse: uma competição em que vencer poderá garantir-lhe a promessa de um novo estatuto social, enquanto perder seria uma forma de resguardar sua integridade e valores pessoais. Ele não pode vencer a corrida, se quiser seguir correndo, metaforicamente, em sua jornada pessoal. Correr é seu derradeiro ato de liberdade.

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Still de “The loneliness of the Long-distance runner”, de Tony Richardson. Reino Unido, 1962.

 

Corte para o interior do estado do Rio Grande do Norte, maio de 2013. No coração do semi-árido potiguar, há, de modo improvável, um indivíduo correndo. Correndo a sério, abnegada e metodicamente. É Túlio Pinto, que propôs uma extenuante jornada a ser cumprida por ele próprio, gerada a partir de uma pulsão artística. Desloca-se – rapidamente, mas sem pressa – por entre planaltos e planícies ásperas, chapadas e depressões geográficas, num asfalto quente, com seu rumo pré-estabelecido por coordenadas geométricas e geográficas.

 CEP

Trata-se do projeto CEP – Corpo, Espaço, Percurso, onde propõs-se a perfazer a pé um total de aproximadamente 400 quilômetros no espaço de 20 dias. O percurso foi iniciado na pequena cidade de Tenente Laurentino Cruz, interior do estado, e terminou na sua capital, Natal, obedecendo a uma rota espiralada determinada cartograficamente a partir de uma matriz gerada pela aplicação da proporção áurea sobre o território do RN. Trajeto cumprido, claro, com as necessárias adequações aos caminhos e rotas existentes, numa “sobreposição entre o ideal e o possível”, como afirma o artista. Um percurso-desenho, portanto, que sintetiza e afirma simbolicamente as demandas que convivem no artista e no esportista.

A jornada estruturou-se de modo metódico. Diariamente, logo ao final de cada trecho, Túlio sacava do material de desenho que trazia consigo na mochila e, ainda sem recuperar-se do esforço físico, posicionava-se na direção de Natal – valendo-se de geolocalizadores também trazidos a tiracolo – e registrava em esboços rápidos, “ofegantes”, o fragmento da paisagem que se apresentava diante dele naquele instante. Desenhos, como diz, gerados “por uma urgência inventada”, movidos pelo afã em captar o momento ainda sob os influxos da condição-limite em que se encontrava. Os desenhos, devidamente assinalados com as respectivas coordenadas geográficas de sua concepção, eram então postados no correio mais próximo e enviados para Natal. O artista escolhe assim buscar na indicação do código de endereçamento postal [CEP] desta correspondência o elemento articulador de seu conteúdo tanto como índice aferidor da concretude da experiência, em sentido físico e temporal, como um dispositivo de atualização constante do status do percurso em andamento.

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Detalhes da produção de sketches pelo artista em sua jornada. (Fotos: divulgação)

A empreitada é movida pela conjugação de reminiscênciaspessoais que envolvem a vocação precoce pelo desenho e pela intensa prática esportiva e uma pulsão artística que é fortemente imbuída deste mesmo sentido de fisicalidade manifesta em sua produção escultórica. O projeto CEP conjuga assim estas motivações, mantendo, como afirma o artista, “o desenho como ferramenta codificadora do diálogo que estabeleço com o mundo”; um entendimento de desenho que se vê aqui transposto para uma escala cartográfica. A dimensão processual do trabalho enunciada já em sua conceitualização ativa a carga auto-reflexiva e o inerente processo de significação que lhe permite afirmar-se como obra de arte.

Um lado da experiência do CEP aponta incontornavelmente, além da fisicalidade extrema a ela inerente, para o aspecto épico invocado pela escala do projeto. Afinal, temos ali o artista, um indivíduo submetido a uma verdadeira experiência-limite, do ponto de vista físico: [per]correr mais de 400 km em 20 dias, e tudo a serviço de nada menos que uma proposição artística (Figura 3). Assinale-se, contudo, que tal aspecto, apesar da dificuldade em ser abstraído da proposta, não está aqui em jogo. Do ponto de vista de Túlio, não interessa valorizar a imagem romântica do artista heróico, pronto a desempenhar atos extremos como, digamos, fatores de sensibilização numa aproximação a sua obra; esta leitura não deve ser entendida como relevante nesta proposta. Há diversos componentes apontando para um olhar “desmitificante” deste viés, como o aparato técnico e toda a logística assumidamente envolvida na empreitada. À maneira de um corredor profissional, o artista-corredor cercou-se de uma equipe responsável por todo o suporte técnico necessário para uma empreitada deste porte: preparador físico, nutricionista, carro de apoio, fotógrafo, produção executiva. Não se trata aqui, portanto, de uma performance de risco ou práticas congêneres[3]; apesar do caráter extremo do projeto no que se refere ao grau de desgaste corporal, a lógica determinante está toda ela voltada tão somente para fazer do próprio corpo um meio ou instrumento para a realização de uma proposição artística nascida de um interesse pelo desenho, executada pela ação física e experienciada como uma ação “escultórica” em grande escala, por assim dizer.

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Túlio Pinto em alguns momentos de sua “maratona artística” pelo Nordeste brasileiro.

PAISAGEM

Uma proposição da qual tem-se a impressão – apesar da elaboração de registros diversos no decorrer de sua execução, com a produção de desenhos e fotografias e a coleta de amostras minerais – de que o que se apresenta como potência residual efetiva não está nos índices produzidos durante a ação, mas num dado da experiência reservado apenas ao artista. Afinal, foi ele o único em condições de apreender em toda a plenitude o que poderia ser entendido como a dimensão estética envolvida no projeto.

O que nos conduz, naturalmente, à questão da paisagem e sua reverberação neste projeto. Ao analisar a problemática envolvendo os diversos enfoques e interpretações possíveis acerca do conceito da paisagem na contemporaneidade, com suas muitas expansões e atualizações desde sua gênese associada ao cânone pictórico, Anne Cauquelin fala da possibilidade desta ser construída por vias que se articulam a partir de relações corpóreas-conceituais e afetividades, em paralelo com a ficção e imaginação (Cauquelin, 2007), implicando que a subjetividade da interpretação é um determinante no modo como percebemos a paisagem.

Dentre os índices produzidos no projeto CEP estão imagens fotográficas de trechos do percurso sobre as quais se sobrepõem gráficos das alterações corporais manifestadas pelo organismo do artista-corredor, em seu embate com a topografia. Tais imagens seriam para o artista mais uma forma de sobrepor os registros de paisagens ali em questão: a exterior, realidade estética cuja percepção é condicionada pelo filtro do olhar humano, materializada no ambiente físico no qual o trabalho se desenrola; e uma outra, internalizada, traduzida não apenas pela organicidade literal dos gráficos como pelo que o teórico espanhol Javier Maderuelo define como “o conjunto de ideias, sensações e sentimentos que elaboramos a partir do lugar e seus elementos constitutivos. A palavra paisagem […] convoca também algo mais: convoca a uma interpretação, à busca de um caráter e à presença de uma emotividade.”[i] (Maderuelo, 2005) Ao que poderia ainda se apor a ideia de que “mesmo as imagensde uma experiência interna só seriam possíveis por empréstimo à experiência externa”, como postulado por Merleau-Ponty[4]; o que, na chave que aqui interessa, poderia ser assimilado como o acréscimo, pela natureza, de uma camada de realidade mental ao mundo físico, expressando dessa forma a noção de “internalização” da instância sensível que se tenta aqui figurar.

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Esquema do trajeto percorrido pelo artista no interior do RN, composto com rochas coletadas durante o percurso.

 

O que permite-nos ainda alocar a aventura de Túlio no registro fenomenológico inerente ao ato de experienciar a condição de pertencimento àquele ambiente, subsumida àquela paisagem em que está de todo imerso. Afinal, citando en passant Gilles Tiberghien, “o conhecimento que podemos ter da paisagem passa pela experiência. Ver paisagem é também imaginá-la” (Tiberghien, 2010)[5]. Já os fatores enunciados por Cauquelin como constitutivos de uma experiência da paisagem se apresentam, de saída, como impulsionadores desta proposta, como comentado anteriormente: a fisicalidade atrelada ao conceito, a reminiscência pessoal de tom nostálgico, a verve imaginativa do artista. Resta a fissura provocada pelo ato de trabalhar a paisagem enquanto realidade tangível – e esse é um dado onipresente na práxis escultórica de Túlio –, esse descompasso que desponta entre as expectativas do imaginário pessoal e a realidade da prática artística, aqui vivenciada num grau de extrema solicitação corporal.

KEEP RUNNING

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“No horizonte do teu olhar és o ser desta paisagem”, enuncia belamente o artista português Alberto Carneiro a propósito de uma exposição sua (Carneiro; Melo, 2003). Este “ser da paisagem” parece definir com propriedade a condição vivenciada por Túlio em suas longas jornadas diárias no “de-correr” de seu projeto no semi-árido nordestino. Imerso na solidão mental que certamente o tomava, o artista transmutado em corredor de longa distância [e vice-versa] segue adiante em sua cartografia pessoal.

O que nos traz de volta a Colin Smith, o jovem corredor libertário do início do texto. Smith gosta de correr sozinho. Ele afirma que é na solidão de suas jornadas que ele pode pensar claramente; é correndo que ele vê as coisas com clareza, que elas adquirem sentido, e quando traça suas estratégias de vida.E por que motivo corre Túlio Pinto? O que leva um artista a eleger o ato de correr como elemento catalizador de uma proposta desta natureza? Ora, precisamente o fato de ser um artista, poderíamos dizer. Ele corre porque – como Smith? – é o que sabe fazer melhor; ele corre porque faz sentido para ele que assim o faça. Corre porque só assim sente-se aderindo por inteiro à textura do mundo terreno, do mundo táctil das coisas sólidas que são tão caras à sua prática escultórica. Pois é disso que se trata em última análise: Túlio é escultor, e no decorrer desta marcha-jornada concebida como um desenho, o que o artista efetivamente realiza é o agenciamento de uma experiência ampliada do que entende por uma percepção escultórica do ambiente que o cerca. O espaço da obra se converte assim, como no velho clichê, na transposição do espaço mental da criação no ambiente da realidade tangível, o que é dizer no espaço da vida. Um espaço que aqui se foi construído in transitu, in extenso, in pleno, a cada passada.

Guy Amado – Junho de 2013

 

 [1] O filme de 1962 de Tony Richardson é baseado na obra literária homônima (de 1959) do também britânico Alan Sillitoe, que assina ainda o roteiro desta adaptação cinematográfica.

[2] A certa altura ele afirma que corre tão bem por conta da prática que desenvolveu após ter que fugir da polícia tantas vezes.

[3] Como também não se trata exatamente de um trabalho de land art, embora seja possível identificar algumas aproximações por esse viés; sobretudo no que se refere à escala da proposta e ao grau interiorizado da experiência.

[4] Tradução livre de minha autoria, a partir do original em espanhol.

Referências bibliográficas:

CARNEIRO, Alberto; MELO, Alexandre (2003). Catálogo de exposição na Porta 33 e no Museu de Arte Contemporânea do Funchal. Lisboa, ed. Assírio & Alvim.

CAUQUELIN, Anne (2007). A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes.

MADERUELO, Javier (2005). El paisaje: génesis de un concepto. Madrid: Abada Editores.

MERLEAU-PONTY, Maurice. (2007). “O Entrelaçamento – o quiasma”. In: O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva.

TIBERGHIEN, Gilles A. (2010) “Bill Viola: na natureza das coisas”. In Concinnitas vol. 2, n. 17. Rio de Janeiro

RICHARDSON, Tony (1962). The loneliness of the long-distance runner. Filme longa-metragem, 104 min. Londres, Woodfall Film Productions.

 

 

 

 

 

 

 

 

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