Marina Abramovic – A Artista Está Ausente?

Em 12 de novembro último, o MOCA de Los Angeles promoveu seu evento de gala anual, com fins auto-beneficentes; angariar fundos para o próprio museu. Em torno de 750 seletos convivas desembolsaram entre 2.500 e 10.000 dólares para participar da concorrida noitada, que de uns tempos para cá transcorre sob a “concepção artística” de um convidado de peso – bem ao gosto do atual diretor do museu, o ex-galerista e consultor Jeffrey Deitch.  Desta vez a responsável seria Marina Abramovic, e que propôs como tema uma ambientação – pois performance não seria o termo exato – extravagante envolvendo 85 performers e a participação de Debbie “Blondie” Harry – aliás, tal como Marina, também ela uma diva pop sexagenária. O evento culminava com uma leitura grandiosa [como tudo mais] de seu conhecido “An artist’s life manifesto”, seguido por uma apresentação da cantora e, para arrematar, com o consumo – ritualístico? – de dois impressionantes bolos artesanais reproduzindo fielmente as duas estrelas da noite de corpo inteiro [e nu]. A culminação kitsch da noite, supostamente visando evocar imagens de uma comunhão contida – o/a artista “que se dá a consumir” pelo público, ou em última análise referindo às “instâncias de consumo da arte”.

performer como 'centerpiece' no evento do MOCA

A proposta foi cercada de polêmica antes mesmo de sua realização. Houve protestos veementes quanto às condições de participação e remuneração das performers selecionadas, jovens cuja “atuação” resumia-se a uma desconfortável – em mais de um sentido, imagina-se – presença silenciosa nos centros das mesas do banquete. Como incômodos elementos decorativos, ali permaneciam imóveis e nuas, fitando abnegadamente os abonados comensais, que recebiam instruções de “não alimentá-las ou tocá-las”. Abramovic alegava com isso criar uma experiência de desconforto e intimidade, estabelecendo uma suspensão da dinâmica habitual em um contexto marcado pela frivolidade e hedonismo de alto calibre. “Eu queria fazer algo diferente [de outros eventos de gala similares]”, afirmou a artista na época. “A novidade aqui é que você não é apenas um convidado num espetáculo; você se torna parte de um espetáculo”.  Antes mesmo do evento ocorrer, Yvonne Rainer, expoente da dança e coreografia contemporânea, lançou uma carta aberta ao museu no intuito de denunciar as condições de trabalho e mobilizar a classe artística a se posicionar a respeito. Contando com a adesão de alguns nomes de peso do circuito, detonou-se a partir daí uma celeuma pré-evento que em termos práticos só fez aumentar o ‘frisson’ da expectativa em torno do próprio.

Marina e Debbie preparam-se para fatiar os "self-cake"

Enquanto “trabalho” da artista, em princípio há grandes problemas. Tanto de um ponto de vista formal, em sua extravagância kitsch, como conceitual, pela ambigüidade confortável que parece revestir a proposta. Ou antes um problema conceitual que passa pelo formal: uma leitura possível do evento seria a de se vislumbrar certa ironia ou cinismo, ao se tratar potencialmente de um comentário crítico à dinâmica autofágica do sistema, etc. Sobretudo no que se refere ao ritual de fatiamento dos ‘personal-cakes’ e distribuição aos convidados, ao final. Mas a julgar pelas fotos que circularam e um vídeo oficial do evento[1], narrado em off pela própria Abramovic, torna-se difícil abstrair o juízo a este ponto. Se há ou havia uma pulsão desse grau, parece ter sido subsumida pela forma e, digamos, pela pulsão narcísica temperada com egolatria. Esse viés metafórico, se procedente, dificilmente se sustenta, dissolvido na forma efetiva do todo, na aura de “entretenimento exclusivo” que dá o tom do evento – e que Marina inclusive parece assumir, no citado vídeo. Os bolos consumidos pela artista e convidada de honra a mim sugerem muito mais auto-referência e/ou evocação de uma comunhão de outra natureza – que não uma eventual crítica mordaz ao “Grande Sistema de Arte”.

Para além das objeções éticas e estéticas – que são várias, neste caso – o que me chama a atenção é um componente egocêntrico que tem transbordado de modo recorrente em Marina Abramovic. A artista parece atravessar uma verdadeira egotrip, marcada pela grandiloqüência e auto-referência. Talvez pouco comentada ou assim percebida por se tratar de quem é – uma figura central da performance art, em cujo trabalho a própria persona emerge como elemento estrutural. Sintomas que para mim tem se evidenciado em produções [nada singelas] como sua série fotográfica A cozinhaHomenagem a Santa Teresa [2009], onde retrata-se “inspirada” na santa em questão, ou na recente encenação The Life and Death of Marina Abramovic[2011], de Robert Wilson mas a partir de convite da artista, e cujo título já dá a medida da pretensão em jogo. Mas sobretudo, e com mais força, em sua retrospectiva “The artist is present”, no MoMA [2010]; especialmente na peça homônima, onde ela sentava-se diariamente no átrio do museu defronte a uma mesa com uma cadeira vazia no lado oposto, enquanto centenas de pessoas do público disputavam o privilégio de estar frente-a-frente com a artista.

"The artist is present", MoMA 2010

Foram cerca de 700 horas de exposição total da artista, numa rotina diária. O que era aquilo senão um extremo exercício narcísico? É certo que os relatos da experiência, por quem lá passou, são sempre plenos de intensidade e emoção. E Marina sem dúvida é uma personagem imponente, carismática e sedutora. Mas ainda assim, convenhamos: ter a sua disposição literalmente um espaço de exposição pessoal com esse grau de visibilidade, no museu mais prestigioso do mundo, por doze semanas, é uma circunstância altamente indicativa, ou propulsora, de excessivas pulsões do ego. A vaidade parece estar a sobrepujar o registro da auto-referência ou “presença da artista” despojada e contundente, que por décadas deu corpo a uma trajetória consistente e investigativa em torno da natureza humana.

Anos antes, em 2005, por ocasião da mostra Seven easy pieces no Museu Guggenheim, onde reencenava peças seminais do gênero – de artistas que ela admirava, além de trabalhos dela própria –, Marina afirmava ter ficado “desapontada” quando não teve a bênção de Chris Burden para reinterpretar uma de suas célebres “actions”. Sendo que Burden, ao não ver sentido em tal reencenação, tão deslocada temporal e contextualmente, e desaprová-la, apenas demonstrava um sentido de rigor com o próprio trabalho que Marina infelizmente parece ter perdido. Momentaneamente, ao menos; é o que esperamos.


[1] Há um vídeo “oficial” do evento disponível aqui: http://www.youtube.com/watch?v=ItF3Hcj_F38

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