The Power 100 [a lista]


No último mês de outubro, a revista Art Review publicou sua já tradicional lista “Power 100”, onde elenca uma centena de nomes dentre os mais poderosos e/ou influentes do circuito global da arte contemporânea. Iniciativa regular lançada há uma década, ampara-se em critérios como “influência na produção artística internacional e contribuição para a sua difusão”, bem como atividade profissional desenvolvida nos últimos 12 meses.

Sob o sintomático enunciado de “Power 100” – que, também sintomaticamente, estampa a logomarca do champagne Dom Pérignon como apoiador da empreitada -, vê-se ali incluídas personalidades que representam a gama diversa de profissionais atuantes no meio da arte: galeristas, curadores, colecionadores, críticos e historiadores da arte, diretores/administradores de grandes instituições, casas de leilão e feiras de arte, e… eventualmente, artistas. Sim: dentre todos os agentes do circuito arrolados no prestigioso ranking, artistas são uma presença esporádica, para não dizer constrangedoramente pífia. Basta passar os olhos nos primeiros 20 colocados, onde só constam três artistas: os medalhões Cindy Sherman e Gerhardt Richter e o chinês Ai Weiwei. Este último aliás encabeça a lista, mas sua presença no topo certamente se deve sobretudo aos fatos envolvendo sua recente e absurda prisão em seu país de origem, episódio que teve enorme exposição mediática.

Alguns dos “Power 100”

Se estendermos esse exercício às 50 primeiras entradas da lista, surgem apenas mais quatro ou cinco artistas; portanto, torna-se claro que, no âmbito da mensuração de “influência”, aqueles que são – ou assim se supunha – os protagonistas ou peças basilares de todo um sistema, são aqui referidos como elementos adjacentes, secundários, a serviço de uma lógica maior que tudo indica ser a do mercado. Mas ainda que adotemos este parâmetro, surpreende, por exemplo, deparar com o onipresente e ultra-solicitado “artista-indústria” Takashi Murakami numa modesta 47ª colocação, ou com o poderoso par formado por Damien Hirst e Jeff Koons em tímidos 64º e 66º lugares, respectivamente; isso para não falar da ausência de um Matthew Barney ou de um Richard Prince numa relação deste perfil.[1] Fiquei confuso.

Em todo caso, como os próprios organizadores afirmam, a “lista dos 100” pretende-se “um guia das principais tendências e forças que moldam o artworld”. Contudo, este ranking da Art Review parece indicar, ou escancarar uma outra coisa: que há sim um fator imperativo e objetivo que articula essas aparentes incongruências, que é o capital; e o poder a ele inerente, como a “influência” – e suas formas quando aplicadas à dinâmica desse circuito, ou seja, o big business e seus principais agentes. Nenhuma grande novidade, é verdade, mas que nem sempre nos é apresentada de forma – até certo ponto involuntariamente – tão didática. É olhar e [re]assimilar que o circuito da Grande Arte Contemporânea cada vez mais tem muito pouco a ver com a atividade artística em si – e não há nada de “romântico” ou nostálgico nessa observação, mas de esclarecida resignação.

Guy Amado

[1] Como consolo, há um brasileiro entre estes 100; e se você já captou o espírito da coisa, ele não é Cildo Meireles ou Beatriz Milhazes, mas Bernardo “Inhotim” Paz.

* Originalmente publicado na Revista DasArtes 17 [2011]

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