Arte contemporânea ao vivo?

A vida imita a arte, a arte imita a vida, etc. Um clichê vago que um novo gênero de reality-show televisivo resolveu tentar seguir à risca. Sim; depois de desfilar uma gama tão eclética de assuntos como música, esporte, moda, relacionamentos, gastronomia e cirurgias plásticas, eis que esse formato chega também ao mundo da arte contemporânea. E por que não? Afinal, tudo é passível de se ajustar à lógica onipresente do entretenimento.

O programa em questão* é Work of art – The next great artist [i], e o formato é o “competitivo” clássico. De um lado, 14 concorrentes, selecionados por vídeo e portfolio – de idades, perfis e etnias estrategicamente variados, como de costume – disputando entre si o prêmio de 100.000 dólares [!] e de quebra ganhando uma mostra individual [ou vice-versa] num renomado museu nova-iorquino. Do outro, a equipe fixa do show: uma apresentadora com ares de starlet anunciada como “conhecedora de arte” e um corpo de jurados composto por dois galeristas-curadores pouco conhecidos, um afamado e afetado leiloeiro/consultor de arte e – curiosa ou sintomaticamente – apenas um crítico de arte efetivo [Jerry Saltz]. Neste staff, todos são nova-iorquinos ou ali baseados.

A estimulante vinheta

Ao longo de 10 semanas, os participantes são compelidos a cumprir tarefas, ou metas que irão determinar sua permanência ou não ali, à maneira já clássica deste gênero. A resposta a estas solicitações tem sempre que se dar na forma de uma obra de arte – é o nome do programa, afinal. E é aí que está o problema. Aparentemente a ideia de processo criativo e produto artístico dos produtores, que seria a espinha dorsal do show, foi entendida como uma gincana de “desafios” que pode tanto se apoiar em clichês disparatados [e reforçá-los] como até mesmo simplesmente se basear em merchandising descarado. Exemplos: episódios em que os candidatos tiveram que conceber capas de livros para uma conhecida editora, ou, flertando com o absurdo, elaborar um trabalho “inspirado nos veículos de certa marca de automóveis” de luxo [!], e – acinte supremo – a ocasião em que foram alegremente instados a “criar uma peça chocante”, nestes termos. E tudo sempre cronometrado, afinal estamos na TV: time is money. “Arte-fast-food”, portanto.

Os 3 finalistas

 

Ora, arte não tem, ou não deveria ter nada a ver, com responder a demandas publicitárias rasas, e menos ainda com reforçar leituras esquemáticas caricatas sobre sua práxis. Aparentemente os realizadores confundiram a noção de atividade artística com “versatilidade a todo custo e criatividade de encomenda”. Os participantes, de quem se poderia esperar alguma objeção, preferem demonstrar entusiasmo com o que lhes é proposto, mas…há muito em jogo para eventuais personalismos éticos ou ideológicos. É compreensível – o jogo é jogado, e quem o protagoniza sabe das regras.

O programa não só é esquemático como leviano, colaborando para difundir uma imagem distorcida e caricata do que possa ser o processo artístico. Se não se sabe bem o que esperar de um reality show semanal sobre arte contemporânea, o que Work of art oferece é sempre menos: um caldo pasteurizado de clichês vazios embalado com toques de frivolidade e pitadas de glamour corporativo,temperado pelos anseios dos ávidos concorrentes, em busca do atalho para a glória instantânea [e possivelmente fugaz]. Ars longa, vita brevis…espero.

Guy Amado

* O programa analisado não seria, contudo, o primeiro neste gênero: “School of Saatchi”, produzido e exibido pouco antes [2009] na BBC 2 inglesa, por iniciativa do todo-poderoso Charles Saatchi, também era ambientado no mundo da arte contemporânea. O formato era similar embora não tão espalhafatoso; os concorrentes ganhavam a chance de expor seu trabalho em galeria prestigiada, mas sem qualquer premiação milionária nem tarefas tão esdrúxulas. A série teve visibilidade discreta e curta duração.


[i] Algo como “Obra de arte – O/a próximo/a grande artista”. Veiculado no canal a cabo norte-americano Bravo desde 2010. Atualmente em sua segunda temporada.

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