Arte e Fracasso

Art comes out of failure. You have to try things out. [John Baldessari]

Depois de comentar brevemente, na última coluna, a ideia de eficácia na arte, achei pertinente abordar agora a questão do fracasso, de certo modo uma forma “complementar” àquela. Trata-se de uma noção tão antiga quanto a própria arte, e que contudo segue proporcionalmente pouco estudada ou discutida. Já do sucesso, fala-se bastante…

Associado grosso modo a uma ideia geral de expectativas ou objetivos não atingidos, o fracasso é, há muito tempo, um aspecto central no fazer artístico; pode-se mesmo dizer que o ato de falhar é indissociado dessas práticas, aí operando em diferentes modos de discurso e definição. Seja propondo-se a realizar ações supostamente impossíveis, por sua abstração, seja aplicado a inadequações e insuficiências da linguagem e da representação, ou ainda como mote crítico em relação a uma sociedade e a um sistema de consumo baseados num modelo de sucesso a todo custo, vê-se o fracasso tematizado ou mesmo incorporado como modus operandi na produção de diversos artistas contemporâneos.

Bas Jan Ader
Francis Älys

 

 A despeito da conotação negativa geralmente associada ao termo, o fracasso pode ser um motor efetivo para a criatividade e a inventividade. Há muitos artistas que desenvolvem sistemas – formais, processuais, intelectuais – e plataformas de atuação que se alimentam da ideia do erro, do acaso, do ensaio ou da re-encenação em contraposição às noções de “sucesso”, acerto e progresso na arte e na vida cotidiana, e extraem destes fatores uma pulsão vital para suas poéticas. A dúvida é adotada, a experimentação é vivamente encorajada; e o erro e o risco, considerados e mesmo buscados como uma estratégia de trabalho. Existe uma qualidade de potência contida naquilo que é usualmente associado ao fracasso.

Samuel Beckett, sempre uma referência no que se refere às articulações entre fracasso, criação e o ato de viver, irá enunciar o estatuto inescapável do erro na arte de forma precisa: “Ser um artista é falhar como ninguém ousa falhar”[1]. A procura da falha e as associações da linguagem de um artista a uma perspectiva do fracasso, mas que incute também esperança ou a perspectiva de superação, estão no cerne da estética do escritor e dramaturgo irlandês. No entanto, pode-se afirmar que tais fatores estarão igualmente presentes, guardados os devidos distanciamentos e singularidades, na produção da arte de um modo geral: essa pulsão habita e move inúmeras trajetórias ao longo da história da arte recente e antiga, em registros diversos.

Roman Signer

O fracasso – ou a falha – seria então um motor natural para a práxis artística, na medida em que se apresenta em sua essência como incompleto e aberto a possibilidades. Falar em fracasso é explorar estas possibilidades, que estão contidas no hiato entre intenção e realização. Ao ampliar a noção de fracasso, abarcando também o erro e o acaso e associando-os à experimentação desimpedida, os artistas têm buscado novos e inesperados modos de escapar de alguns impasses; e neste processo, a partir dos pólos subjetivos do sucesso e do fracasso descortina-se um espaço para potenciais operações produtivas, onde regras e dogmas tendem a ser evitados. Mesmo que seja para “dar errado” ou “não se chegar a lugar nenhum”. E novamente. Novamente.

Junho 2011

 [1] Disjecta: Miscellaneous writtings and a dramatic fragment, edited by Ruby Cohn, New York: Grove Press, 1984, p. 145

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