“Arte política” e eficácia

[texto originalmente publicado na revista DasArtes 16, 2011]

Em O espectador emancipado[1], seu livro mais recente, o pensador francês Jacques Rancière toca num aspecto tão caro quanto arredio a boa parte da produção artística contemporânea: a ideia de eficácia. Trata-se de um conceito tradicionalmente incômodo quando associado à arte, o que se deve ao fato de implicar numa função ou funcionalidade objetiva da qual a arte teria se distanciado – grosso modo desde o modernismo – e à qual seria mesmo refratária. Falar em “eficácia artística” soa, assim, um tanto inconveniente, ou no melhor dos casos, ultrapassado.

Entretanto, parece um termo inevitável quando se pensa em certas práticas artísticas dos dias de hoje. Rancière traz essa noção à tona quando analisa uma parcela da produção artística atual que circula sob o mote da arte política — ou arte social, arte crítica, arte engajada, ou como se queira chamar a estas manifestações, com as devidas variações de vetor. O fato é que diversas ações levadas a cabo alegadamente sob essa bandeira fazem com que passemos a nos sentir no direito de cobrar esse tipo de “retorno”; a eficácia se torna uma instância que acaba por ser involuntariamente invocada ao experienciarmos propostas desta natureza. O próprio teor da obra, seja este o de sensibilizar o público para o problema em determinada comunidade carente, seja o de misturar-se de tal maneira com o “real” [aqui basicamente entendido como o mundo, ou lugar externo e contraposto à suposta neutralidade do espaço institucional] que nele dilui-se para então retornar, “re-significado”, ao museu, seja o de tornar visível o que já é sabido, mas instaurando novas formas de percepção, convoca o espectador a indagar-se sobre uma ideia de resultado efetivo que estaria ali se desenrolando.

Tais proposições se aproximam de uma ideia de eficácia quando vistas como “saídas exemplares da arte para fora de si mesma”, lembra Rancière; ou seja, quando em última análise deixam de ser arte para se afirmarem puramente como o que enunciam e almejam: ações ou proposições que se pretendem em alguma medida transformadoras daquilo sobre o que operam, e em que muitas vezes o aspecto ético se sobrepõe fortemente ao estético. Para tal, adotam procedimentos que ora as distanciem da experiência estética — por exemplo, abrindo mão da produção de objetos artísticos ou de um “resultado-forma”, apostando antes no fator sensibilizatório que convoca a adesão do público à causa em jogo —, ora as escorem em efeitos monumentais de apresentação dos enunciados da proposta, incorrendo num paradoxo de difícil solução. Gera-se assim a dependência incômoda de uma lógica em que fica evidente a importância do espaço expositivo para [tentar] provar a efetividade de proposições que não raro o referem [implicitamente ou não] como uma espécie de “instância secundária” ou indesejável no processo.  Como observa novamente o filósofo francês, “a arte ativista imita e antecipa o seu próprio efeito, correndo o risco de se tornar uma paródia da eficácia que reivindica”.

Não se trata aqui de adotar um posicionamento “contra” este tipo de produção artística; muito pelo contrário, até. Alguns dos artistas que mais admiro tem sua obra associada ou inserida neste tipo de práticas; e acho salutar, necessário e mesmo inevitável que haja um campo de reflexão e transposição de tais inquietações, como este que a arte permite com tanta singularidade. Mas certas abordagens e posturas procedimentais deixam frestas que, se não implicam em fornecer respostas, poderiam se mostrar mais comprometidas com as possibilidades de “verificação” sobre seus enunciados, seus parâmetros ou critérios de uma possível eficácia ou do que consideram “resultado”, tornando a experiência do trabalho mais completa e consistente.

 Maio de 2011


[1] RANCIÈRE, Jacques. Lisboa: Orfeu Negro, 2010. [ainda inédito no Brasil]

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