José Resende x Guy Amado: um pingue-pongue

[conversa-entrevista para catálogo do Centro Cultural São Paulo, 2005]

Algumas perguntas de Guy Amado para José Resende:

Guy Amado: Dentre os diversos aspectos recorrentes em sua produção, chama atenção a equivalência que os valores da construção e da desconstrução adquirem. Me vem à mente sua proposta de intervenção para o Arte/Cidade 1, em que você compunha estruturas a partir de elementos encontrados no local, e que eram sucessivamente montadas e desmontadas. Deixando de lado a força desse trabalho na especificidade do contexto do evento (o que não é pouco, é verdade), você crê que se poderia interpretá-lo como uma alegoria de paradigmas formais da linguagem escultórica?

José Resende: O trabalho se faz recorrendo a um repertório de materiais corriqueiros, presentes no cotidiano de quem mora em centros urbanos, como tubos de cobre usados em instalações hidráulicas, pano de voal transparente para cortinas, ventiladores à venda em ambulantes, materiais que estarei utilizando neste trabalho “nheco nheco” que será montado no CCSP. Neste trabalho isto ocorre, mas é uma constante que os materiais escolhidos se articulem através de ações simples, imediatamente perceptíveis pelo espectador, que pode facilmente remontá-las com o olho. Portanto, as peças não existem apenas como forma; são indissociáveis das ações que as criaram. Se eu entendi bem esse binômio construção/desconstrução, aqui se colocaria para indicar que o entendimento do trabalho passa por retirar o espectador de uma relação passiva, apenas contemplativa em relação aos trabalhos, para esta experiência de refazê-los com o olho.

em ação no Arte/Cidade 1 1994

G.A. – A propósito da questão anterior, como você vê as possibilidades de inserção pertinente da escultura contemporânea no plano da chamada arte pública? Que fatores devem ser considerados primordialmente ao se pensar uma intervenção desse âmbito? (pergunto isso por seus trabalhos freqüentemente constituírem uma dinâmica autônoma, particular, que poderia sugerir dificuldades em responder a propostas assim. Não obstante, como sabemos, você já se envolveu e foi bem-sucedido em experiências desse perfil).

J.R.: Eu ouvi em um debate a Sophia da Silva Telles responder com muita pertinência a uma questão sobre arte pública com outra pergunta: o que seria uma arte não-pública? Seria possível uma arte privada? Será que íntimo é mesmo o contrário de público? A possibilidade de uma presença pública, ou seja, da obra de arte passar efetivamente à bem público, envolve instâncias bem mais amplas e complexas, daquelas que a produção de arte possa resolver por si só. Por exemplo, para existir peças públicas (aliás, contemporâneas ou não) seria primeiro necessário que tivéssemos, no país, melhor caracterizada a (noção de) cidadania. Se os museus ainda se esforçam para conseguirem ser mais públicos, não será uma ação isolada, de um artista contemporâneo que poderá ser bem-sucedida nesse sentido.

G.A.: Gostaria que você falasse um pouco da presença e da medida do corpo em seu trabalho; em que escala e grau a mesma se daria e se ela está condicionada, em sua poética, a uma desnaturalização da representação do corpo…

J.R.: Acho que a relação com o corpo existe e é fundamental no trabalho, pois é na medida do corpo que fica inscrita nos materiais as ações que os vinculam, e que além de os estruturarem, definem sua escala, e assim permitem ao espectador a experiência mencionada na resposta anterior. Ao contrário do que você indaga, há uma naturalização do trabalho ao se relacionar dessa forma com o corpo. Além disso, não existe representação no meu trabalho, os materiais e as ações não estão re-apresentando nada, ou seja, não estão em lugar de nada, são elas mesmas na sua concretude que estão ali. Se a figura de uma mulher explicitamente aparece em um trabalho como a Venus, por exemplo, é mais por um comentário bem-humorado que ali é lateral, e não com a intenção de estar representando a “Negona”, como acabou sendo carinhosamente apelidada no Rio de Janeiro, onde está instalada.

sem título, 1991

Algumas perguntas de José Resende para Guy Amado:

José Resende: O que o move a escrever sobre um trabalho de arte?

G.A.: Essa questão parece permitir mais de uma inflexão, e gosto de não pensar na prática da escrita sobre arte como necessariamente vinculada ao exercício da chamada crítica de arte. Mas acredito que minha motivação esteja em boa medida associada a uma inquietação, uma vontade de compreender e me aprofundar melhor na profusão de questões presentes no repertório da contemporaneidade; e tentar identificar nas possibilidades e questões expostas na obra de um artista, em sua linguagem e nos desdobramentos de seu processo de trabalho, uma articulação com estes anseios – tendo sempre a consciência de que minhas impressões sobre a obra serão sempre uma sobre tantas possíveis.

J.R.: Questões como construção/desconstrução ou desnaturalidade são anteriores e se referem à produção de arte em geral. Te motivam quando particularizadas em algum trabalho, ou, ao contrário, é olhando o trabalho que elas te ocorrem? Parecem a mesma coisa, mas acredito que não são. Esta curiosidade é uma extensão daquela que motivou a pergunta anterior…

G.A.: De fato, noções como construção/desconstrução apresentam-se como recorrentes no vocabulário da arte. Pensei nelas porque é um dado que me chama a atenção no que já pude conhecer de sua vasta produção. E que a meu ver pode emergir no seu trabalho de maneira mais literal, alegórica mesmo, como no caso que mencionei (o projeto-intervenção para o Arte/Cidade 1), como em peças mais “introspectivas”, que comentam de modo mais sutil seu próprio processo de realização… Mas não são aspectos que eu busque a priori num trabalho; tendo a valorizar uma abordagem tão descondicionada quanto possível, no confronto com a obra – o que nem sempre acontece, é verdade. Essa talvez seja, aliás, uma das maiores dificuldades que sinto na minha experiência de aproximação com um trabalho novo a meus olhos: assegurar uma condição de impermeabilidade a leituras contaminadas por referenciais estilísticos ou formais anteriores. E não quero com isto postular a busca por uma certa “pureza” ou componentes “transcendentais” no trabalho, mas valorizar uma leitura que parta de um patamar isento de pré-concepções. O que a meu ver não impede que possa ser função do crítico localizar ou apontar numa obra eventuais influências e filiações; muito pelo contrário. Enfim, mesmo podendo soar como um clichê, tendo a concordar com Frederico Moraes quando este afirma que é a obra, em si, que indica ao crítico o método de sua abordagem, seja por quais vias estas se dêem.

J.R.: Acho que meu trabalho é meio arredio às palavras. Para você, qual é a aproximação mais direta e fácil para chegar nele? E qual a maior dificuldade?

G.A.: Acho que entendo o que você quer dizer. Minha impressão é a de que – mesmo achando difícil pensar seu trabalho em termos absolutos, na medida em que parece estar sempre a meio caminho entre uma série de polaridades – isso talvez se deva a um aspecto de incomunicabilidade já apontado em sua obra, no sentido dela se afirmar a partir de uma lógica interna, determinada por exemplo na relação entre os materiais sobre os quais você opera e/ou em seu enfrentamento com a forma. Por outro lado, esse mesmo repertório de materiais, em sua aparência tradicionalmente despojada e associado às elegantes mas austeras soluções com que você freqüentemente os arranja (que podem também incorporar um componente de improviso), são fatores que introduzem certo grau de familiaridade no contato com tua obra – podendo a meu ver se constituir na via de acesso mais direta a uma aproximação com sua produç

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