Geraldo Souza Dias

A trajetória de Geraldo Souza Dias na pintura aponta para interesses temáticos e procedimentais aparentemente diversos, podendo tanto deter-se na abstração gestual como mostrar-se mediada pela figuração ou pela evocação da palavra. Pode-se contudo interpretar esta diversidade na sua produção ao longo dos anos como uma postura que afasta sua prática pictórica do enclausuramento a determinado gênero ou categoria, numa pesquisa cuja coerência só pode ser encontrada no interior do próprio trabalho.

O conjunto de pequenas pinturas recentes ora apresentado (de 2004) induz a uma aproximação, em sua fisionomia imediata, ao cânone construtivo, notadamente por sua estruturação modular, geometrizada. Uma leitura movida unicamente por essa via se verifica porém inadequada para melhor assimilar as questões em jogo. Ao se analisar esta produção mais detidamente, percebe-se uma gama de sutilezas e peculiaridades no procedimento empregado pelo artista que solapam quaisquer interpretações mais restritivas.

Por trás do rigor estrutural e de uma aparente “vontade de ordem” de que num primeiro momento parecem imbuídas essas pinturas, pairam certos detalhes em sua conformação que atenuam a eventual rigidez que possa se insinuar. Indícios do processo de colagem que determina e dá forma às composições são percebidos veladamente aqui e ali, de onde escapam vestígios de palavras – elemento já entrevisto anteriormente na obra de Geraldo. Um dado artesanal na fatura dessas peças – seja no traçado deliberadamente incerto das linhas e contornos como na cor que se espalha e preenche os campos de modo irresistível – sinaliza para o componente de afetividade (a não ser confundida com sentimentalismo) de que é investida esta empreitada. A ordenação se mostra contraposta pelo impulso e pela intuição, distanciando o trabalho de filiações herméticas.

A impermeabilidade a leituras estanques nesta produção é acentuada pela presença, ainda que localizada, do elemento figurativo que emerge no grupo de pinturas – organizado à maneira de um mosaico – povoado de motivos que cercam o artista em seu atelier: Peças de mobília, potes de tinta, pincéis e outros fragmentos deste universo, apresentados em um registro despojado.

Essa pintura em pequenos formatos conforma-se assim entre a matriz construtiva e o descompromisso com a tradição, que o artista se permite revisitar livremente. Suas “colagens pictóricas” apresentam-se despretensiosas, agradáveis ao olhar, sofisticadas em sua simplicidade, indicando uma prática sistemática e apaixonada que repensa e amplia as possibilidades de expressão na linguagem da pintura.

Guy Amado

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