Anestésicos® e placebos: uma bula

 

Anestésicos ® e placebos: uma bula

Bula:

1. Farm. Impresso que acompanha um medicamento, com informações sobre sua composição, contra-indicações, uso etc.

2. Antigo selo aplicado em documentos ou cartas escritos por papas e outros soberanos; documento solene expedido pela Igreja Católica em nome do papa (bula papal)

3. Art.Cont. Impresso que acompanha uma obra de arte, com informações sobre sua conceituação, nexos e sentidos possíveis, intenção original do autor, ficha técnica, uso etc.

Placebo:

1. Med. Substância farmocologicamente neutra, cirurgia ou terapia simulada usada para controlar reações, ou administrada a um paciente pelo seu possível efeito psicológico benéfico.

Composição:

Cerca de uma dúzia de proposições artísticas em linguagens e materiais diversos dispostas em espaço expositivo adverso.

Ingrediente ativo: a convergência temática nestas peças para o mote do tensionamento de convenções de bem-estar que regem o comportamento na sociedade contemporânea, acompanhando a cada vez mais sofisticada e perversa lógica do capital. Imperam os influxos de uma nova cultura hedonista de massa, uma cultura do bem-estar e da felicidade imediata para os que podem pagar por ela; onde novas sub-patologias pipocam a todo momento, prontas a contemplarem as demandas de uma indústria farmacêutica sempre de prontidão. Num cenário em que paradoxalmente se cultua o personalismo de uma existência dentro de rigorosos padrões estéticos e comportamentais ditados pelo mercado, pululam síndromes e variados tipos de disfunção até então desconhecidas, anunciadas numa suspeita escala hiperbólica que afeta decisivamente o indivíduo. Este se percebe agora quase sequioso de ser enquadrado em alguma patologia, sob o risco de se ver alijado de sua condição social. Medicamentos como os psicofármacos [especialmente os ansiolíticos] são alçados ao estatuto de verdadeiros estabilizadores, não apenas da integridade emocional ou mental, mas da persona pública do sujeito contemporâneo.

Excipientes: isopor, pelúcia, veludo, tinta acrílica, fotografia, comprimidos, cartela e frascos de medicamento. E fruição do paciente-espectador-consumidor.

Indicações:

Anestésicos® é recomendado para distúrbios emocionais, funcionais e outros distúrbios psicossomáticos, como a alienação em estado latente. Anestésicos ® é ainda útil no tratamento de estados de ansiedade e tensão nervosa derivados da existência metropolitana e como adjuvante de tratamento psicoterápico e psiconeuroses.

Contra-indicações:

Anestésicos ® não deve ser administrado ou fruído por audiências com hipersensibilidade ou inclinação favorável a teorias de auto-ajuda. Expor indivíduos nesse quadro ao medicamento somente em caso de extrema necessidade, pois não deve ser desconsiderada a possibilidade de ocorrência de danos culturais e ideológicos irreversíveis.

Precauções e advertências:

Precaução especial ao se administrar ou expor Anestésicos ® a audiências com altos índices de adesão ao senso comum [devido ao relaxamento mental preexistente] e a pacientes com disfunções sugestionáveis midiáticas graves.

Interações medicamentosas:

Como ocorre com qualquer substância psico-estético ativa, o efeito de Anestésicos ® pode ser intensificado por uma fruição adequada. Se Anestésicos ® for consumido concomitantemente com outros produtos de ação central, tais como neurolépticos, tranqüilizantes e hipnóticos, seu efeito des-sedativo pode ser intensificado. O consumo simultâneo com livros de certos teóricos – diletantes ou não – ressentidos com a visualidade contemporânea pode rebaixar o efeito terapêutico da literatura destes.

Reações adversas:

Em doses terapêuticas, Anestésicos ® é bem tolerado. Cansaço, tendência à dispersão e, em raros casos, relaxamento mental podem ocorrer quando experimentado em altas doses. Estes sintomas inexistem com a ingestão correta da dose, a ser definida de acordo com o repertório pessoal do paciente-espectador. Embora não existam evidências de efeitos tóxicos ideológicos ou afetando a capacidade de discernimento, recomenda-se, em situações expositivas prolongadas, controle do hemograma e da função hepática da audiência.

Dependência:

Pode ocorrer dependência quando de terapia com benzodiazepínico e imersão estética. O risco é mais evidente em pacientes em situação de fruição prolongada, altas dosagens e particularmente nos espectadores predispostos, com histórico de familiaridade com arte, forte personalidade e outros distúrbios psiquiátricos. No sentido de minimizar o risco de dependência, Anestésicos ® só devem ser prescritos após meticulosa avaliação quanto à indicação e devem ser administrados pelo período de tempo que se determinar como adequado. A continuação do tratamento, quando necessária, deve ser acompanhada bem de perto, eventualmente podendo tocar com as mãos alguns Anestésicos ®. A duração prolongada do tratamento só se justifica após avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios em jogo.

Posologia:

Dose média de fruição para audiências não-familiarizadas: 0,5 a 2 horas até 3 vezes ao mês. Casos graves, especialmente audiências já iniciadas: 4 a 8 horas por sessão, 2 vezes por semana. Estas dosagens devem ser consideradas como recomendações gerais, devendo a dose de cada espectador ser determinada de modo espontâneo e individualmente. O tratamento deve ser iniciado com doses baixas de exposição, gradualmente aumentadas até se atingir a fruição ideal. Caso seja necessária a interrupção do tratamento, a retirada do medicamento deve ser imediata, e de pronto substituída por alternativas notoriamente mais anódinas, como sessões de televisão e incursões em shopping centers.

Superdosagem:

A superdosagem manifesta-se por estado confusional, preguiça mental, hiporreflexia [com recusa à fruição estética e análise conceitual] e sono profundo. Recomenda-se lavagem gástrica e arejamento cerebral, monitoramento e tratamento convencional das alterações respiratórias, cardiovasculares e oculares. Em casos extremos, recomenda-se o uso de antagonista específico, como televisil, na dose inicial de 6,3 h PD com intervalos para refeições a cada 3 sessões, até reversão do quadro clínico crítico.

Siga corretamente o modo de usar; não percebendo nenhum novo sintoma, procure orientação teórica adequada ou simplesmente espere pelo próximo diagnóstico.

 

Guy Amado – maio de 2009

 

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