TAPUMES ou UMA POÉTICA DO AVESSO

Dentre a profusão de meios, linguagens e veículos de expressão artística que conforma a visualidade contemporânea, é sensível na cena brasileira dos últimos anos a insurgência de uma vertente que valoriza o emprego de materiais pobres, soluções visuais despojadas e arranjos [mais e menos] precários. Uma movimentação que, se ainda não configura exatamente uma “categoria”, já foi enquadrada informalmente em rótulos de estatuto relativo como poética da gambiarra e estética do precário, e que permite revitalizar discussões acerca de antigos estigmas envolvendo uma certa idéia de “arte brasileira”, que se veria atrelada a resquícios da tradição construtiva e a uma inefável vocação para a superação da tão referida adversidade histórica que a marca, etc.

A produção que Henrique Oliveira apresenta no CCSP poderia ser talvez associada distraidamente a essa tendência, dada a fisionomia inequivocamente áspera e rudimentar do material que constitui seus Tapumes, que expõe aqui; mas seria incorreto resumir seu trabalho a apenas mais uma manifestação de precariedade estratégica. Os arranjos-construções feitos de lâminas de madeira usadas [recolhidas sistematicamente pelo artista nas ruas] com que ele vem ocupando espaços expositivos nos últimos dois anos surgem não na oblíqua, mas em paralelo à produção pictórica que desenvolve já há vários anos. E não poderia ser diferente, uma vez que os trabalhos com tapumes vieram à tona a partir de interesses que o artista já manifestava em sua pintura; essa pesquisa com retalhos de madeira se apresentaria antes como uma extensão natural de sua atuação, complementando e rebatendo as inquietações geradas no embate cotidiano com a tela, tendo conquistado autonomia gradual em relação àquela atividade.

Quando analisada à luz desta relação de proximidade, essa série de trabalhos denota pontos de afinidade facilmente identificáveis na pintura de Henrique: ali está o interesse pela fatura em camadas, num procedimento de combinação e sobreposição das peças análogo ao modo com que aplica a tinta em seus quadros – elementos fragmentários que se superpõem, num movimento realizado do fundo para a superfície -, bem como o gosto pela composição cuidada. Os Tapumes permitem também que o artista aborde e dê vazão a aspectos que sua pintura não contempla, como a operação de inversão simbólica efetuada a partir da função primordial do próprio material-refugo, voltada para a ocultação de algo que transcorre ou se encontra “do outro lado”. Interessa a Henrique explorar as possibilidades estéticas inerentes a este material, desgastado pela ação do tempo e da intempérie, e trazê-las à tona, para o lado de cá, num processo que ainda leva em conta a arquitetura dos espaços que abrigam o trabalho, encarando-os como suporte – ora optando por adequar ou adaptar os Tapumes à configuração física do local, ora propondo um formato de montagem que problematiza ou revitaliza temporariamente o ambiente. E que ao fim das contas segue falando de pintura.

Guy Amado

 

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