Presença da ausência

[originalmente publicado em catálogo para a Galeria Virgilio]

Três séries de pinturas de pequenas dimensões: duas de interiores domésticos e espaços públicos e uma de quase-retratos, intitulada Não estava lá. Como na produção anterior de Adams Carvalho, alguns elementos recorrentes se fazem presentes, a começar pelos temas: ambientes vazios, silenciosos — nas séries de interiores — e figuras femininas, agora flutuando languidamente em campos de cor e padronagens ornamentais. Moças que parecem emergir como coadjuvantes nesses quadros, numa hipotética disputa com a cor e as ricas texturas que as envolvem. Enquadradas como se flagradas por um voyeur, elas emergem todavia um tanto à margem da composição; por vezes adormecidas, em outras discretamente entretidas consigo mesmas, não parecem ser o foco central dessas pinturas. Ou pelo menos é o que entrevemos pelo modo com que a cor intensa e as texturas rápidas dos tecidos as engolem e dominam a composição, tornando-as quase meros pretextos saborosos para uma ocupação desimpedida da cor em meio à atmosfera onírica que habitam.

Em relação aos Interiores, há um elemento novo a despontar nessa série: os “reflexos” perceptíveis em algumas imagens. Os ambientes esvaziados de presença humana mas plenos de luz e cor se vêem atravessados por áreas de uma luminosidade fantasmática ou especular inédita na produção do artista. Indicam planos, que por sua vez apontam para uma discussão em torno de espaços internos e exteriores à pintura; os planos físico e simbólico do real e de sua representação, por exemplo. Afinal, a realidade pode não ser o que aparenta e depender de como nós a vemos, construímos ou interpretamos para se constituir como imagem.

Estes ambientes, até pela ausência de pessoas a habitá-los ou a “ativá-los”, sugerem ou emanam certa qualidade de melancolia, em boa medida derivada de sua atmosfera de temporalidade suspensa, imprecisa. Mas são impressões equivocadas, creio — não é o que parece estar em jogo. Há neles menos espaço para a nostalgia que para a instalação de uma suspensão do tempo; como se só assim o artista pudesse captar em detalhes, com ternura desinteressada, as sutilezas e nuances daquilo que normalmente escapa à percepção fugidia da rotina do cotidiano.

Há ainda uma referência cinematográfica que surge quase como inevitável a partir dos ângulos — ou, mais apropriadamente, enquadramentos — adotados por Adams para compor/recortar seus Interiores. Poder-se-ia pensar de imediato em paralelos ou aproximações com Edward Hopper e Michelangelo Antonioni, dois mestres na “captação de ausências” — cada um em sua linguagem ou metiér [não esquecendo que o diretor italiano era também apaixonado por pintura e fotografia]. No entanto, a angústia, a melancolia, a incomunicabilidade e o distanciamento característicos na obra tanto do pintor como do cineasta não têm lugar na produção de Adams. Silêncio e lentidão, sim. Existe nessas pinturas uma pulsão em se desacelerar como que para tentar dizer pelo não-dito, uma busca pelo sentido das relações e pelas relações de sentido que tentamos detectar e conferir às coisas do mundo. Quase como um infinito plano-sequência congelado de Antonioni, ou uma daquelas cenas urbanas de Hopper em que parece haver um abismo entre pessoas que dividem um mesmo e diminuto ambiente. Foucault afirmava que “por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz […]”, referindo-se a um descompasso de linguagem entre as possibilidades da palavra e da apreensão visual; e se a palavra não se evidencia na produção de Adams, o silêncio de suas pinturas falam muito ao que não pode ser dito.

Guy Amado

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