EXPECTORANTES – Jailtão

[originalmente publicado em catálogo do CCSP]

 

Men can see nothing around them that is not their own image; everything speaks to them of themselves. Their very landscape is alive. (Karl Marx)

É da profusão de códigos visuais e comportamentais difundidos pela indústria da imagem e do massmedia – e do subsequente processo de “iconização” compulsiva que marca a experiência da existência na metrópole – que Jailtão extrai subsídios para articular sua plataforma de ação, atuando na esteira desses fluxos.

Ele observa e comenta, com irreverência e acidez, o aparato de convenções por trás das ideologias de consumo e de bem-estar social. Sua estratégia nesse processo é a da contra-informação, na forma da apropriação, subversão e ressignificação dos códigos legitimadores de um discurso oficial.

Adotando uma linha procedimental centrada na subversão bem-humorada e no desmascaramento – ou explicitação – de dogmas e contradições no tecido sócio-cultural que reveste a urbe civilizada, Jailtão realiza interferências sobre meios usuais de propagação das mesmas convenções de uma sociedade do bem-estar. Suas intervenções convidam o espectador a experimentar uma súbita tomada de consciência de instâncias e situações que o cercam no dia-a-dia, compelindo-o à tomada de uma postura frente ao mundo.

Seu repertório é conciso e emblemático das questões que elege, informado não por teorias da comunicação mas pelo amplo espectro de idiossincrasias que encontra no cotidiano – da publicidade televisiva ao pedinte no ônibus. Placas de sinalização, faixas, cartazes, outdoors e outros elementos característicos da visualidade urbana são transmutados pelo artista em instrumentos tensionadores de paradigmas sociais e culturais.

Com seus “expectorantes” – expressão livremente emprestada do próprio artista com que designo os irônicos deslocamentos simbólicos que o mesmo desenvolve – Jailtão promove um ruído que conduz a uma experiência extra-estética, ao mundo da vida, à realidade que é a um só tempo assimilada e contraposta ao universo da arte.

Se, como já apontou Deleuze, toda arte pode ser um ato de resistência*, as investidas de Jailtão configuram antes uma tomada de posição frente a um sistema de convenções veladas, em uma sociedade marcada pela desigualdade. Hakim Bey, um dos influentes nomes em práticas de resistência cultural na contemporaneidade, sinalizava para iniciativas “elásticas, distendidas, pontuadas por pequenas ações” (referindo-se ao seu conceito de zona autônoma temporária), que terminariam por proporcionar “momentos libertários”. Os trabalhos de Jailtão se afirmam como propostas de contaminação libertária por meio da inserção pontual e impactante destes “expectorantes”, a partir dos quais o autor se constitui numa espécie de agente disruptor da cultura, assumindo o papel do artista não como criador, mas antes como um “atravessador” – que propõe e convida à reflexão sobre uma revisão de valores e práticas, driblando com humor e contundência o discurso fácil da mera “denúncia” ou da exclusão.

Guy Amado

* in “O ato de criação”, palestra de 1987. Edição brasileira: Folha de São Paulo, 27/06/1999

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