ESCORAMENTO PARA O OLHAR – José Spaniol

 

José Spaniol fez do “incidente arquitetônico” contido na intrigante disposição das colunas que sustentam a Sala 1 do Centro Universitário Maria Antonia o mote de uma poderosa intervenção, povoando o ambiente com réplicas fidedignas – elaboradas em gesso – daqueles elementos.

Ao replicar as estruturas preexistentes, multiplicando-as e espalhando-as pelo recinto, Spaniol problematiza sua já incômoda configuração original, algo órfãs na peculiar disposição no espaço. Essa celebração silenciosa e solene do ambiente gera um estranhamento, levando-nos a questionar alguns aspectos da nova dinâmica espacial estabelecida, como o número excessivo de pilares e sua (não)função efetiva naquele contexto. A profusão de colunas que agora tomam a sala parece potencializar a percepção de seu entorno, comentando e amplificando o vazio imanente ao espaço; como se esse excesso atuasse a um só tempo como elemento estabilizador e de desestabilização do olhar, falando a nossos sentidos menos por remeter à sua eventual função que para intensificar a experiência de uma nova apreensão sensorial do ambiente.

"Colunas", 2003

Pode-se talvez interpretar essa intervenção como um calço metafórico para nossa percepção, aludindo a uma necessidade ancestral do homem por índices que reafirmem sua cognição do mundo por uma via tátil, mais direta e confiável aos sentidos. Uma associação que aliás se apresenta como dado recorrente na poética do artista, onde a referência ao elemento arcaico e a culturas antigas sempre esteve presente – especialmente em sua produção escultórica.

O projeto em questão remete – talvez por contraponto – a Mirante, belo trabalho anterior de Spaniol (executado em 1997 para o evento ArteCidade 3) onde uma estrutura de quatro paredes de taipa, erigidas de forma a (quase) formarem um quadrado mas sem se tocarem, convidava o público a esgueirar-se em seu interior, incitando a uma breve reflexão sobre a experiência de estar dentro e estar fora. Ali, como aqui, o artista recorre ao vocabulário arquitetônico para propor indagações acerca do lugar e da função das coisas, sugerindo que o olhar ainda atua como um intermediário em nossa relação com o mundo – como indicando que para melhor apreendê-lo seja preciso renovar constantemente nossa capacidade de experimentá-lo.

Guy Amado

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