Epifanias ordinárias – Leopoldo Ponce


Se pode ser arriscado adentrar a presente produção de Leopoldo Ponce pelo viés do mito, essa abordagem mostra-se, por outro lado, inevitável. Arriscado pela óbvia e incomensurável carga de simbolismos, ancestrais ou não, que o termo evoca, ou mesmo convoca; para não mencionar, de resto, minha considerável falta de lastro para me aventurar com propriedade em tal matéria.

Inevitável, por outro lado, pelo fato da noção de mito se configurar inegavelmente como assunto na maioria das obras ora expostas. E por assunto me refiro a interesse, pulsão primal, força motriz desta série de trabalhos, e não exatamente a um tema; afinal, um tema se ilustra, se discute e subentende certa vontade de problematizá-lo. Quando “apenas” assunto, há um maior descompromisso e liberdade no modo de se manipular e tratar o repertório em foco, como aqui.

E apesar de se tratar de pintura, e pintura habitada e protagonizada por imagens, mesmo quando a referida dimensão mítica se apresenta mais assumida como mote nessa figuração, em uma morfologia que alude mais diretamente a arquétipos, as mesmas dificilmente parecem estar a serviço de instaurar narrativas grandiosas, épicas. São no máximo a “tradução imagética de uma arquétipo constitutivo de nossa realidade”, como ressalta o próprio artista, despojadas do tradicional estatuto hierárquicoiconográfico habitualmente associado ao mito, arranjadas em situações prosaicas ou de silenciosa – mas não reverente – imanência, no caso dos backlights.

A recorrência de elementos da natureza nas composições – água, sol, arco-íris, fogo -, combinada a sua carga alusiva, potencializa certa expectativa por promessas de situações alegóricas, mas que no entanto não se efetivam, contidas pela despretensão com que Leopoldo as manipula, reafirmada pela maneira singela com que tais elementos se dão a ver nos trabalhos. Se tivesse que estabelecer uma hipotética – e talvez desnecessária – distinção, diria que o registro do artista está mais próximo ao da fábula que da alegoria. O que está em jogo aproxima-se de um interesse pelo mito tal como o mesmo se apresentaria imerso na vida cotidiana, diluído e contaminado por vicissitudes e efemérides.

Em alguns casos, é verdade, pode-se entrever situações narrativas possíveis, ou ao menos de algum potencial alegórico, como no barco/navio que avança, majestoso em sua aura afogueada, sobre carcaças de automóveis, num improvável mas saboroso encontro de, digamos, Turner e Guston. Ou na paisagem à maneira de um Klee psicodélico que se descortina à frente de um indefectível pára-brisas de fusca, inundada por um glorioso alvorescer. Mas é justamente a possibilidade de se estabelecer leituras e paralelos algo irresponsáveis como esses que anula uma leitura narrativa estanque, e define o lugar que o artista elege para tratar seu assunto, na banalidade com que seu assunto pode emergir na vida cotidiana.

Uma leitura mais adequada para articular a noção de mito à produção de Leopoldo estaria exatamente na assimilação dos mesmos como tentativas de explicar a realidade, desde tempos imemoriais; aí se resumiria muito do que está em jogo nessas peças. Esse dado de realidade se manifesta de imediato nos suportes escolhidos pelo artista: trata-se sempre de materiais de segunda mão, já usados, disponíveis no vasto ofertário de sobras da cidade. Madeiras, fórmicas e folhas de acrílico desgastadas transformam-se em superfícies sobre as quais intervir com tinta ou técnicas de colagem, não raro indicando, em suas texturas, ranhuras e imperfeições caminhos possíveis para o desenho ou composição que irá reinventá-las.

Cabe observar contudo que não há, neste procedimento, interesses fetichistas pelo eventual apelo “pobre” do material, e tampouco por valorizar processos de “arqueologia urbana”: tais elementos interessam sobretudo por estarem impregnados de intensa carga de cotidianidade, que será fundadora das ações plásticas subseqüentes.

Nesse sentido, a práxis de Leopoldo aproxima-o da figura do bricoleur, que em certa medida – obviamente guardadas as devidas proporções – remonta ao homem primitivo, que colhia no ambiente em que vivia aquilo que lhe convinha, acumulando e depois destruindo ou descartando. Um pouco como o “andarilho” que dá nome à exposição, o artista recolhe aqui e ali estes refugos, indícios da existência urbana – e, numa acepção mais ampla, quiçá de um projeto civilizatório – para tecer sua própria teia de interpretações e re-significações. Sinaliza assim uma tentativa de conciliar experiência estética e um dado de ancestralidade que não cessa de se atualizar em práticas sociais contemporâneas, o que não deixa de ser uma reaproximação do mito…

Guy Amado – 2008

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