Limbo doméstico [sobre Flaminio Jallagheas]

O ambiente, de uma domesticidade reconhecível por certas qualidades arquetípicas, se vê sendo esvaziado aos poucos das coisas que o povoam. O ritmo suave e impreciso da evanescência que tira os objetos de cena, reforçado pela agradável e discreta música de fundo, não parece obedecer a uma lógica que sirva para dar conta do que acontece ali. Tal processo desafia a física e uma idéia de ordenação qualquer que se poderia supor natural nos eventos em curso, parecendo a serviço de uma hierarquia subjetiva de outra natureza.

Ao constatar a desaparição dos objetos, é inevitável pensarmos em um padrão ou mecanismo lógico ditando os acontecimentos: e no entanto as coisas se esvaem arbitrária e docemente, sem dar lugar a qualquer evento, ou sucessão de acontecimentos cuja expectativa se possa ter alimentado e que eventualmente nos reconcilie com a experiência de aconchego insinuada pela ambiência doméstica, de uma idéia de “lar”. Desenrola-se uma espécie de coreografia misteriosa, quieta e improvável, ditando a supressão dos elementos e os desenhos de sombras que a iluminação ambiente insiste em registrar, salientando as ausências do que estava ali logo antes. É gerado um jogo de expectativas que ao fim parecem não se cumprir, ao menos a partir de uma lógica convencional.

O imaginário doméstico é por excelência um ativador da sensação de familiaridade, de reconhecimento daquilo que tende a despertar sensações como conforto, segurança, aconchego, ternura. E no entanto tais sentimentos se mostram suspensos – bem como a temporalidade – e atravessados, na oblíqua, por uma atmosfera de estranhamento quando se nota o que “des-ocorre” ali. A dicotomia familiaridade e estranheza permeia toda a situação, na delicada tensão estabelecida pelo reconhecimento de um ambiente alusivo a um imaginário doméstico estereotípico e o movimento de esvaziamento dos elementos que o instauram. É desta tensão, ou jogo de expectativas vãs — ou que se mantêm em aberto — que advém a sensação de estranhamento frente a tal situação. E que leva a pensar, se quisermos, no conceito de unheimlich freudiano, referindo-se ao estranho que não significa o novo, o alheio, mas algo familiar, já introjetado no nosso repertório pessoal mas re-apresentado de modo inquietante ou perturbador. Uma noção que, indo um pouco mais longe, pode ainda se reportar a “tudo que deveria ter permanecido em segredo e oculto, mas veio à luz”. Se é assim, aqui nos Platôs de Flaminio Jallagheas o unheimlich se evidencia por uma operação de via inversa, potencializado menos pelo que se revela do que pelo que é suprimido, no deslocamento simbólico e perceptivo que sua proposta efetiva.

Fala-se indiretamente, claro, também de memória, referência inevitavelmente ativada pela tematização da ausência, e da sugestão de um personagem que ali habite, ou possa habitar. “Personagem” a não se confundir, cabe observar, com a breve aparição de uma figura feminina, que emerge em cena como se saída de um plano de fundo falso, efeito propiciado circunstancialmente pela arquitetura do ambiente sobre a qual o artista projeta sua imagem-matriz. Personagem apenas de si mesma, em sua efetiva condição funcional, servil [de governanta], sua presença fugaz é incorporada ao trabalho como uma ativadora de novas possibilidades de nexo e deslocamento narrativo que a ambientação cubana permitiu – um incerto “fator local” no qual Flaminio apostava já desde a concepção do trabalho.

A presença transitória de objetos ou artefatos comuns, pelos quais se mediar com o universo da vida privada, parece incutir um desejo de ficcionalização nessa proposta. Mas que contudo se traduziria talvez menos em ficção do que em fricção; ao assinalar poeticamente o descompasso entre as temporalidades e filtros possíveis nas várias camadas – “platôs”? – que conformam a experiência de percepção do mundo, Flaminio Jallagheas se coloca na posição ambivalente de um inquieto “observador metafísico”, a um só tempo distanciado e questionador, no limbo silencioso e envolvente em que seu trabalho se estabelece.

Guy Amado, 2009

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