BOLA DA VEZ – Diego Belda

[publicado originalmente em catálogo para a galeria Virgilio em 2007]

Abrindo mesa. O pano verde sempre convidando ao mesmo jogo – que no entanto nunca se repete: o colorido das bolas alinhadas à espera de serem postas para correr sobre sua superfície, ativando uma improvável – porque graciosa – e sempre inédita sucessão de ritmos geométricos e cores em movimento. A lógica mais fria pode sugerir ao incauto uma promessa de monotonia, a partir da cadência e da temporalidade que é própria do jogo; a plasticidade do conjunto, contudo, fala mais alto, garantindo o fascínio e, por que não, o espetáculo. Além disso, há a ritualística envolvida: o talco e o giz, o quadro-negro e o marcador, a aparada na sola do taco com a lixa, o avental e luvas para os que gostam de botar banca… mais que meros prolegômenos, hábitos e acessórios que contêm a aura de uma tradição, do  “mundo de dimensões do pano verde de uma mesa de sinuca” de que João Antônio já falava com tanta propriedade.

Bola 2 na caçapa um. Não cai como previsto – a branca corre demais, passa do ponto e cola na tabela lateral. Agora é o caso de arriscar, a 5 é sempre uma boa opção. Um corte no meio: caixa. Uma tragada e volta-se à 3, agora bola da vez, caçapa quatro, diagonal no fundo. Pega um pouco de quina mas vai; isso também é do jogo, embora a mesa não tolere muitos erros. Tabelas novas, borracha tinindo, o feltro recém-trocado, demora a se pegar o tempo da bola.

Desde a primeira tacada, entram em cena uma batelada de fatores: raciocínio, precisão, erro, destreza, confiança, fleuma, visão de jogo, fair play e sorte e azar, para os que acreditam nisso. E para quem é do ramo, malandragem, sobretudo quando a coisa é a dinheiro. Ah, e o estilo…não exatamente elegância, não exatamente o controle absoluto sobre a situação; talvez um pouco de cada, mas sobretudo aquele inefável ponto em que poesia e um modo próprio de viver se fundem em um jeito de se fazer, uma postura que parece sempre embutir certo grau de intimidade particular com o mundo. Estilo é a resposta para tudo, afirmava Bukowski, categórico – ele próprio um jogador de sinuca apenas em potencial, embora não lhe faltasse estilo. “Fazer algo estúpido com estilo é preferível a fazer algo perigoso sem estilo. Fazer algo perigoso com estilo é o que chamo de arte”, afirmava. Em se tratando de snooker, noções como “estupidez” e “perigo” são relativizadas; mas ainda assim, poucas vezes se vê ocasião tão propícia para associar estilo a “arte”.

Bem, e há a física, claro: sempre esperando ser contrariada por tacadas impossíveis, bolas que são cuspidas… como se não houvessem tabelas, espetos, efeitos, puxadas e outros recursos que em sinuca chamam picardia, lembra novamente o João, cronista de uma São Paulo que hoje parece tão remota. Mas a sinuca resiste. Jogo cerebral, jogo de coração, feito de polaridades: razão e intuição, ataque e defesa, lógica e acaso, ruído e silêncio, equilíbrio e angústia se alternam no final do taco.

O jogo agora é a 7, a matar mas defendendo; e paga-se o preço da insegurança, nem uma coisa nem outra. A mesa fica aberta. A próxima tacada demora a chegar, quase o tempo de um cigarro inteiro, bem fumado. Mau sinal. Retorna à mesa na bola 6. Bola de três tabelas, rodando a mesa e caindo no meio. Tac-tum-tum-tum: sua trajetória descrevendo quase um polígono perfeito, um retângulo áureo. Não cai, mas é sempre uma bela tacada a se tentar. Ao travar a branca, acaba por defender involuntariamente. Não chega a trancar a mesa, mas ao menos a bola da vez não fica em posição confortável.

A cachaça está acabando; a cerveja ainda não veio. No marcador, as contas mudam de lugar, deslocadas pra lá e pra cá; os sinais a giz alterando-se a cada partida, abaixo das iniciais dos contendores.

Mas o jogo é jogado. Percebe que a bola 6 por algum motivo ainda permanece na mesa. Dá-lhe uma sarrafada, com um bocado de efeito negativo na branca – ela atravessa o feltro diagonalmente como um bólide rosáceo para despencar no buraco três, o do canto à direita. A tacadeira fica mal parada. Agora é preciso fazer a 7 na seqüência, para que ela retorne à mesa e aí então metê-la novamente; é a única chance. Ela cai sem convicção, e a branca, ainda menos convicta, rola incerta até parar à beira da caçapa oposta, a de baixo, escondendo-se caprichosamente entre as quinas, anulando qualquer possibilidade de angulação viável. Sinuca de bico. É o nome do jogo, afinal – embora não se suponha que vá ser auto-infligida. De certo modo é uma tacada fácil, pois não há muito o que se pensar. A situação é duramente simples: um milagre, ou partida encerrada – e de milagres se desconfia e a sinuca não comporta. Seja como for, não se ganha o jogo – o jogo ganha sempre. Na vida como na arte, arriscarão alguns, provavelmente com razão – embora aqui seja difícil apontar onde termina um e começa o outro. Sete caindo no canto, três tabelas…


Guy Amado – Novembro de 2007

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