Marcus Vinicius – “Promessa de beleza”

[texto originalmente publicado em catálogo da mostra homônima na Galeria Virgilio, SP, 2008]

Conversando com Marcus Vinicius, e acompanhando sua produção já há vários anos, me dou conta, a partir de um comentário seu, de uma instância recorrente em suas exposições: a vocação para gerar expectativa que seus trabalhos despertam. Me explico melhor, para não dar margem a interpretações equivocadas – até porque essa sensação não seria incomum nem exclusividade de sua produção: refiro-me aqui a um sentimento de “o que virá depois” que se percebe amplamente manifesto, em graus diversos, a cada mostra sua, e reconhecido pelo próprio artista. Decidi então refletir um pouco sobre que fatores determinariam tal propensão, à qual eu mesmo já me vi aderindo outras vezes.

Fosse Marcus um artista “formulaico”, do tipo que aposta em uma idéia a cada temporada, tal inquietação ganharia tons negativos, na linha do “e agora, como sairá dessa?”; mas não é o caso aqui – longe disso, aliás. Se há uma característica marcante em sua obra é a regularidade e coerência com que dá seguimento a uma pesquisa pictórica rigorosa e consistente, partindo sempre de uma concepção de estrutura-quadro que, somada a soluções plásticas que embutem forte componente de artesania e rigor compositivo, já se tornou reconhecível à distância. E talvez então aí esteja a resposta: o artista chegou a um estágio em sua trajetória em que suas peças se tornam a um só tempo familiares e surpreendentes, a cada exibição. O referido grau de “expectativa” advém de um ponto de equilíbrio atingido em sua produção situado entre a reinvenção e a repetição, buscando novos limites menos para efetivamente transpô-los que para deles extrair possibilidades de desdobrar sua investigação plástica.

Ainda que o trabalho se apresente com frescor renovado, os procedimentos técnicos e formais quase não se alteram; o dado artesanal presente na fatura esmerada – mas não necessariamente preciosistaestá ainda lá, bem como a atenção à função, propriedade e relações entre materiais e elementos compositivos: o vidro que contém e reflete, as tintas industriais não preparadas, a movimentação interna em que o ritmo é imposto pela cor. Uma novidade nesse processo de decomposição da estrutura pictórica que Marcus empreende há tempos está nas “molduras” que tomam esses quadros mais recentes; trazidas de modo deliberadamente exagerado para o plano frontal, contrapõem-se à estrutura mais aberta e envolvente, quase “total” de peças anteriores. Não creio que com isso esteja em jogo uma súbita atenção ou interesse especial do artista pela superfície – seria de resto valorizar um elemento estrutural específico, o que não parece ter lugar na abordagem não-hierárquica da pesquisa de Marcus: assemelha-se antes a uma estratégia ou recurso compositivo que, algo paradoxalmente, confere mais liberdade ao artista, sobretudo no que se refere à experimentação cromática, agora francamente mais desprendida. “Sempre penso tudo como cor”, afirma Marcus: é seu elemento-chave, seja como célula-matriz, como “espaço” ou elemento ativador [harmonizador ou desestabilizador] da composição.

O comentário a uma certa idéia de pintura segue sendo, a meu ver, o mote de Marcus há quase dez anos. Não por acaso, chama essa produção inédita de “Quadros tradicionais” – e por tradicionais subentenda-se o lastro de uma tradição que o artista revisita à vontade, num registro oscilando entre a reverência e a experimentação, a austeridade e a transgressão. Como de hábito, suas peças são auto-referentes – explicitam em si o dado processual e constitutivo -, auto-afirmativas, francas, sendo que agora o que nos acostumamos a assimilar como exercício de rigor oferece menos obstáculos a uma experiência de puro deleite visual.

O que nos traz à “promessa de beleza” que dá nome à exposição. De minha parte, prefiro compreendê-la na chave ambígua que anuncia: seja como um dado latente no trabalho já há tempos, na condição de uma oferta sempre não totalmente consumada, como beleza que finalmente agora se dá a ver de modo menos refreado.

Guy Amado

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