Sob[re] o céu e outras instâncias terrenas – Marcelo Moschetta

[originalmente publicado em Contracéu, 2010]

 

A natureza e sua representação estão no cerne da relação do homem com seu entorno desde tempos imemoriais. Forma ancestral de tentar apreender o mundo, no anseio de compreender mais sobre sua própria existência, é no proceder a interpretações visuais da mesma que ele pode aspirar a uma condição de transcendência, tenha ou não consciência disto. Tais impressões ganham registros diversos ao longo da história da visualidade humana – aqui entendida como o que cabe no termo “Arte” -, ao sabor de épocas históricas e suas vicissitudes. Registros que podem se apresentar tanto em formalizações idealizadas, solenes e reverentes, vinculadas a uma tradição mimética de reprodução do mundo, como também de modo mais livre e subjetivo, distorcidos ou estilizados, evocando leituras metafóricas ou, ao contrário, esvaziando quaisquer interpretações além do que se mostra ali.

Motivos da natureza, ou especialmente da paisagem natural, freqüentam também, e de modo recorrente, a obra de Marcelo Moscheta; com freqüência nos deparamos com nuvens, rochas e formações geladas em sua produção. Parece haver, no entanto, um interesse menos centrado na ideia de representar a natureza em si que nas possibilidades de reflexão que essas manifestações trazem à tona. Um aspecto de peso em sua poética claramente diz respeito à faculdade da percepção e suas possibilidades e limitações. Não há como ignorar um deslocamento de sentidos no ato de captar elementos da paisagem e fixá-los no registro preciosista e “rebaixado” característico do artista, para nos concentrarmos em sua produção mais conhecida. O que poderia ser uma operação banal, descrito dessa forma, se mostra mais instigante e elucidativo de sua práxis quando se observa que tal processo é realizado em um delicado e minucioso processo de aplicação de camadas de grafite sobre placas rígidas com resultados portanto potencialmente fugidios. O encantamento perante o virtuosismo na fatura e o apelo estético desses desenhos é enriquecido pela constatação de aspectos evidenciados por essa relação [tema-assunto/procedimento-técnica] que são caros ao artista, como o interesse pela temporalidade, por aquilo que é transiente ou efêmero, o que por sua vez traz a reboque questões sobre movimento/deslocamentos e o lugar das coisas.

Tais procedimentos e questões são conjugados de modo mais ousado e incisivo no trabalho que o artista agora realiza para a Capela do Morumbi, neste projeto ContraCéu. A partir das singulares características físicas e simbólicas do local, e da premissa de “responder” às mesmas, Moscheta decidiu propor-se o desafio de trazer o céu – ou ao menos um fragmento considerável deste – para dentro do espaço da capela. Se não o Céu prometido nas Escrituras, ao menos aquele mais mundano, que dá cor ao mar, alimenta sonhos, conforma nossa ideia mais arquetípica de paisagem e segue reafirmando nossa incontornável condição terrena, afinal.

O painel acinzentado, posicionado ao fundo da Capela, à maneira de um altar, toma quase toda a largura do espaço e confronta o público frontalmente – altar que é, não custa lembrar, lugar por excelência de ritos encenados e potencializador de epifanias, dados que encontram rebatimento direto em ContraCéu. No painel vislumbram-se manchas cujos matizes e grau de definição oscilam ao sabor da luminosidade e da distância que dele se mantém, efeito típico do grafite quando aplicado em quantidades maciças. Ganham por fim contornos de nuvens, em nuances que aos poucos se afiguram aos olhos como um fragmento de céu – o que de relance já se adivinhava mas talvez ainda se duvidasse. Um céu construído num jogo ilusionista que vai se descortinando frente aos olhos de quem se aproxima ou se afasta da estrutura, céu-desenho espelhado em simetria perfeita pelo aço polido que o devolve e o fixa, num limbo instantâneo, nos olhos de quem vê. Dois planos se encontram, o que está em cima e o que está em baixo; e nessa convergência de céus, desenhando uma impossível linha do horizonte, já não se sabe qual é matriz de qual. Quanto mais de perto se observa, menos certezas e mais abstração, embora com o conforto relativo de se poder verificar o procedimento gerador de tal efeito. Ao “trazer o céu para o chão”, o artista não opera assim apenas uma inversão no plano simbólico, como incita a uma reflexão sobre nossas certezas e percepção das coisas do mundo em âmbito mais amplo.

Se para Marcelo “a paisagem é como um contraponto para medir a si mesmo”, “um lugar onde se pode medir o mundo”, este mote ganha nessa obra, e nesse local, um poder de síntese que talvez ele não tenha logrado atingir antes com tal clareza e potência. Alexander Cozens, artista paisagista e teórico britânico do século 18, postulou em um tratado que “não se busca mais o universal do belo, mas o particular do característico; o característico não se capta com a contemplação, e sim com a argúcia ou a presteza da mente, que permite associar ou combinar ideias-imagens, mesmo muito diversas e distantes[1]. Parece ser exatamente o que o artista faz aqui. Em sua complementaridade infinita, as idéias-imagens que executa em trompe-l’oeil sugerem como que uma improvável mancha de Rorschach do sublime. Exercício forte de epifania fabricada, concebida no limite da técnica e da sensibilidade, que joga com a emoção do espectador num cálculo frio, abstrato e preciso. Moscheta traz o celestial para o terreno para depois nos tirar esse chão.

Guy Amado

 

 


[1] segundo Giulio C. Argan, em Arte Moderna, p.18

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