Arte processual hoje e certa preguiça da forma

[publicado originalmente no Meio Vol. 1, Funarte, 2010]

Sobre arte processual enquanto categoria artística: bem, parece-me que toda arte envolve processo. Seja de ordem mental, intelectual, criativa, temporal, ideológica, física e/ou prática/formalizadora, e por aí vai, mas sempre alguma instância processual. Assim como a vida, aliás – uma sequência de eventos mais ou menos encadeados, por vezes pontuados por incidentes e fatos ordinários e extraordinários, que nada mais são do que um processo. Mais longo e mais agradável ou proveitoso para uns que para outros, é verdade, sendo interrompido em definitivo cedo ou tarde. Ao pé da letra [e com alguma má-vontade, vá lá] trata-se portanto de um exercício de redundância, referir a dita “arte processual” como tal; como deixaria de ser? Por “processual” me refiro a uma vertente artística da atualidade que tende a remeter à sua própria condição de arte enfatizando sua práxis por meio do desenvolvimento de “propostas em aberto” e estratégias congêneres em que a ideia de resultado se mostra geralmente tênue, mostrando-se não raro subsumida pelo discurso e pela natureza fugidia das proposições. Uma característica freqüente na produção ligada a esta modalidade é a de um baixo grau de formalização, quando não inexistente. Ou seja, arte que a título de valorizar uma ampla noção de processo pode prescindir de uma instância de materialização final, ou, em outras palavras, de constituir-se como arte num plano mais terreno. Vê-se aqui e ali propostas consistindo em enunciar elegantemente um quase nada, a acontecer ou não em um lugar qualquer, confortando-se em elencar uma determinada linha de procedimentos vagos e descomprometidos quanto a uma instância mais concreta de efetivação. É a estas manifestações que eu atribuo certa “preguiça da forma”; não no sentido em que a forma é classicamente nomeada na estética [aquela intrinsecamente ligada ao que é próprio da linguagem ou aos princípios gerativos e constitutivos da obra, etc], mas simplesmente de carecer de um grau maior de compromisso com a práxis artística, em última análise. Preguiça, enfim, de se apresentar como arte de um modo mais convincente.

Lançada essa provocação, cabe ressaltar que não se trata aqui, obviamente, de desqualificar propostas artísticas pelo simples fato de não apresentarem “suficiente materialidade”, o que seria purismo tolo e descabido. Como é amplamente sabido, há inúmeros casos de trabalhos exemplares na história da arte recente que só existem enquanto ideia, proposição ou registro [de ações, intervenções, peças efêmeras, etc], e que no entanto se afirmam como arte sem maiores questionamentos, sobretudo depois da trilha aberta por Duchamp. E que foi ampliada, em outro grau, por Beuys, Klein, a plataforma mais orgânica de ação do Fluxus e tantos outros. O que gera certa aflição são casos, na contemporaneidade, em que se evoca a noção de arte processual de modo a servir como uma espécie de verniz ou instrumento de respaldo retórico-teórico. Penso em produções que assim se referem mas que no fundo parecem ser apenas pretexto para pulsões de outra ordem – muito mais teórica que prática, por exemplo. Trabalhos que passam a sensação de terem sido concebidos quase como a materialização forçada de um conceito ou pulsão intelectual, e que em última [ou primeira] instância poderiam ter prescindido disso.

Luigi Pareyson já afirmava que “a obra de arte é, antes de tudo, um objeto sensível, físico e material, e que fazer arte quer dizer, antes de qualquer coisa, produzir um objeto que exista como coisa entre coisas, exteriorizado numa realidade sonora e visiva” . Por mais “antiquado” que isso possa eventualmente soar em tempos de mídias e possibilidades plásticas tão plurais e híbridas, na prática segue mantendo sua dose de pertinência, especialmente para artistas que se valem da noção de processo para ali criar uma zona de conforto, abrigados nas possibilidades permitidas por um rol de questões sempre atualizado, discursos afiados e propostas práticas sempre em aberto, num processo que não se fecha e mal se distingue sua consistência real. É também comum nos depararmos com propostas, nessa linha de atuação, em que se percebe um desejo de dar substância a uma ideia de processo [com a abstração aí inerente], o que pode ser externado como algo ligado à ação do tempo ou pautado em “ativações” a serem feitas pelo público [de modo eventual ou conclamado], ou mesmo sendo mantido na esfera do intangível. Ou ainda casos em que o processual é entendido e trabalhado em chave mais literal, seja valorizando-se a matéria em decomposição ou aspectos como efemeridade e impermanência. Nesse sentido, é arte tautológica, que morde o próprio rabo como para se convencer de que é mesmo arte, ou para enfatizar tal condição. Logo, é potencialmente arte com baixo índice de convicção acerca de seu estatuto enquanto arte. Esta postura “meta-arte” já foi importante por permitir o estabelecimento de um novo estatuto filosófico para a arte, como observa Arthur Danto com categoria . Mas uma coisa é pensar esse dado auto-referente ou auto-reflexivo nos termos estimulantemente niilistas [na época] aventados por Duchamp ou na chave ontológica de Danto, e outra é fazer uma arte que parece ter preguiça de ser arte. Ou que não quer se confundir com outra determinada produção. Ou ainda, para definir posicionamentos sobre qual tipo de arte certa produção não queria ser, ou não se parecer com – vide a anti-forma de final dos anos 60 e as proposições em land art, happenings e performance de Morris, Smithson, Heizer, Burden etc., produção classicamente referida como arte processual, bem como os desdobramentos que se seguiram. Uma coisa é uma plataforma poética onde se vislumbra uma ideia de “forma-processo” que é elaborada naturalmente ao sabor das pulsões que a constituem, ou daquilo que novamente Pareyson chamou “o processo enquanto invenção do modo de fazer arte”; outra é o processual tornado fetiche e pensado ou invocado como fator legitimador e potencializador de “poéticas do quase nada”, confortado por discursos, causas e motivações díspares.


Mais recentemente, a plataforma teórico-prática da chamada Estética relacional de Nicholas Bourriaud colaborou na atualização dessa noção do processual, inclusive no registro de seu entendimento que vejo aqui como bastante distorcido em relação às já citadas práticas dos anos 60/70, bem como do conceito de escultura social de Beuys. A E.R. se mostra fortemente interessada num adensamento das relações humanas na arte, do artista com seu entorno e com seu público, nas experiências e repertórios individuais que propiciariam uma “construção de significados coletivos”. Uma definição de metas instigante mas um tanto vaga, e que, mesmo que não se possa afirmar que se constitua num corpo coeso ou uniforme de práticas artísticas, certamente se presta a seguir alimentando uma parcela de “trabalhos processuais”. Podem ser proposições de cunho poético ou sócio-assistencial inteligentes e repletas de boas intenções, por exemplo, mas que justamente por sua natureza inatacável [o teor tangenciando causas humanitárias, por exemplo] tendem a solicitar um grau de adesão que torna quase irrelevante a cobrança por uma formalização posterior mais consistente [enquanto obra de arte]. Valoriza-se um componente ético e uma abordagem multicultural de uma maneira tal que tornam alguns trabalhos razoavelmente avessos à crítica, na medida em que ressalvas ou observações mais rigorosas equivaleriam a falta de sensibilidade ou coisa do tipo. E assim disseminou-se no Brasil [mas não só] uma prática que no geral se oferece como possível municiadora para uma certa “preguiça da forma”, com todo o aparato discursivo e “atitudinal” para sua perpetuação. Sendo que, é importante lembrar, o país tenha tido representantes gloriosos no quesito informal e processual nos anos 60 e 70 [só para ficar no óbvio: difícil não pensar em casos em que a ideia de processo seja tão autenticamente fundadora como os de H. Oiticica e Lygia Clark], e tal linha de atuação siga como mote de muitos bons artistas. Creio apenas que poderíamos ser mais claros e chamar as coisas pelo que são – ou pelo que procuram ser, ou pelo que não chegam a ser. E talvez definir melhor aquelas práticas que estão por demais hesitantes em ser arte – ou pior, ansiando por essa condição mas esforçando-se para se diluírem em qualquer outra coisa, refugiando-se em interpretações preguiçosas do mote “arte e vida”. Afinal, como se diz por aí, vivemos tempos em que qualquer coisa pode ser arte, mas arte não pode – ou não deve – ser qualquer coisa.

Guy Amado

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