Mr. Fried e a fotografia

[originalmente publicado na coluna AltoFalante, na DasArtes 13, 2010]

 

No último mês de outubro, o renomado crítico e historiador da arte Michael Fried ministrou palestras no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde pude assisti-lo. Figura altamente respeitada no grande circuito da arte, o norte-americano veio falar sobre aspectos que aborda em livro recente, Why photography matters as art as never before (Yale University Press, 2008), ainda inédito por aqui.

Seguidor dos postulados de Clement Greenberg, Fried ganhou notoriedade a partir de seu ensaio seminal “Art and objecthood”, de 1967, onde contrapunha a plataforma e valores do chamado “high modernism” tão caros a seu mentor [leia-se sobretudo a geração do expressionismo abstrato americano e seus sucedâneos pré-pop] à cartilha do então emergente minimalismo. Autor de diversos e densos tratados sobre história da arte, detendo-se notadamente sobre pintura, Fried de certa forma surpreendeu ao escrever o livro que o trouxe aqui, onde elege a fotografia de arte contemporânea como assunto central. Como ainda não pude lê-lo, atenho-me a tecer impressões apenas a partir do que pude reter da fala de seu autor sobre o livro.

Após uma breve contextualização sobre sua trajetória, onde se evidencia seu, digamos, posicionamento estético, o crítico tece um panorama da conquista do estatuto da fotografia enquanto linguagem artística autônoma, desde os anos 1970 – o que não é exatamente uma novidade. A seguir, Fried então apresenta o conjunto de fotógrafos que considera emblemáticos das questões que pretende desenvolver sob o mote já anunciado. Basicamente, uma leitura da fotografia contemporânea à luz de alguns conceitos informados pela filosofia que o autor trabalha já há tempos, como teatralidade, literalidade, objetificação e absortion [termo de difícil tradução precisa]. O que faz com clareza e fluidez, associando tais aspectos, oriundos ou mais familiares ao vocabulário da pintura, a questões presentes na vertente fotográfica que escolheu enfocar. Assim, nomes como Jeff Wall e os alemães Andreas Gursky e “os Thomas” – Struth, Demand, Ruff – são elencados a serviço do viés que interessa ao teórico, que detecta alguns elos comuns a todos. Primeiro pela tendência a grandes dimensões dos trabalhos, e que aponta, ou impõe, uma nova relação entre espectador e obra; depois pelo dado instigante da realidade construída, ou encenada, presente em registros diversos na produção dos artistas.

Uma exposição sem dúvida interessante, bem como o modo como é desenvolvida, e cuidadosamente amparada em imagens. Mas a mim fica certa impressão de insuficiência, como se a pretensão implicada num enunciado tão ambicioso não fosse correspondida na argumentação [ao menos numa fala compacta de duas horas]. Como se no fundo a coisa tenha se resumido à aplicação de um método, arduamente talhado em décadas e forjado no cânone de certo modernismo tardio, sobre uma hipótese – envolvendo uma linguagem até então fora do foco central do autor –, sem maiores tensionamentos. Falando por mim, não saí tão convencido do “porquê da fotografia ser importante como nunca” – ao menos não nos termos que Mr. Fried tão saborosamente nos apresentou. Resta ler o livro.

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