Komar & Melamid e o desencanto do gosto universal

[publicado originalmente na Numero 2, 2006]

 

Desde os anos 70, o “coletivo de dois” formado pelos artistas russos Vitaly Komar e Alexander Melamid tem se valido de pinturas, instalações, performances e intervenções públicas para desconstruir ativamente categorias da história da arte, num aparentemente desconexo pastiche de estilos, imagens e referências que no entanto revela a natureza fluida das narrativas canônicas da história, e em como elas mudam em função das agendas políticas, sociais, econômicas e culturais de vários regimes. Sua obra convida o espectador a uma ativa (re)consideração dessas narrativas, que, combinadas às paródias mordazes que efetuam, resultam numa arte que provoca a reflexão e entretém.

Em 1993, a dupla _ainda praticamente desconhecida no Brasil, apesar de sólida carreira internacional, tendo participado de eventos de porte como a Documenta 8 (1987) e da Bienal de Veneza, em 1997_ decidiu investigar a possibilidade de haver (ou não) uma legítima “arte do povo” (a não ser confundida com arte “popular”), e que fisionomia esta teria. Lançaram-se então numa empreitada, inicialmente nos EUA, que consistiu em realizar um levantamento em que centenas de pessoas foram interrogadas acerca de suas preferências e gosto pessoal em arte _especialmente na pintura. Trata-se do projeto People’s Choice, documentado em Painting by Numbers – Komar and Melamid’s Scientific Guide to Art (New York: Farrar Straus Giraux, 1997), publicação que traz uma longa entrevista com os artistas, além de ensaios do crítico e historiador da arte Arthur C. Danto e da editora Joann Wypijewski.

Amparados pelo serviço de agências especializadas, K & M prepararam um extenso questionário _em que se tentava deliberadamente evitar o termo arte, de modo a não influenciar os que respondiam_ na tentativa de apurar os componentes visuais que as pessoas elegem em sua vida cotidiana. Obtiveram um amplo banco de informações, que analisaram e interpretaram para elaborar, eles próprios, peças que sintetizassem e traduzissem visualmente estes dados: “a pintura mais desejada” e a “mais rejeitada” (“most wanted” e “unwanted paintings”, no original). A etapa seguinte do projeto foi expandir a sondagem para outras regiões do mundo – a saber, China, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda, Islândia, Quênia, Rússia, Turquia e Ucrânia (posteriormente, o projeto já abarcou Portugal, Alemanha, Itália e a própria Internet, até 1999). Tendo entrevistado pessoas em diversos países e continentes, sempre em amostragens estatisticamente representativas da população, os artistas reproduziram as respectivas pinturas que refletissem os anseios estéticos de cada nação. E nesse processo chegaram a uma constatação até certo ponto chocante: na imensa maioria dos casos, a “pintura mais desejada”, não obstante raça, classe, gênero ou naturalidade, provou ser invariavelmente uma pacata paisagem realista, sempre em tons predominantemente azuis _a cor favorita do mundo, agora sabemos_, com animais e pessoas (personalidades ou não) em primeiro plano, geralmente sobre uma tela de grandes dimensões.

A impressionante similaridade _da Rússia aos EUA, do Quênia à China_ entre essas esquemáticas “paisagens azuis”, como os artistas as chamam, aponta para uma internacionalização do gosto popular, sugerindo que o que esses diferentes povos têm em comum talvez não seja tanto um “apego à natureza”, presente em todas as pinturas, como seus sonhos do belo compartilhados – o que pode talvez ser atribuído à proliferação de uma cultura de consumo global enraizada numa história da arte também compartilhada. Quanto às peças que exprimiriam o que as pessoas menos querem em uma pintura, as “mais rejeitadas”, configuraram-se quase sem exceção como composições abstratas geometrizadas, em tons de ouro e laranja. Apresentam no entanto uma variação considerável no que se refere às dimensões, oscilando entre tamanhos pequenos e grandes. A única, curiosa e talvez sintomática exceção à regra foi a Holanda – terra de Van Gogh e Mondrian, não custa lembrar -, onde verificou-se a primazia da abstração sobre a figuração nas preferências dos entrevistados.

As pinturas resultantes oferecem um irônico comentário sobre o sistema político e o gosto popular nos EUA e em boa parte do mundo, bem como sobre o papel da arte nestes sistemas. Em uma era em que pesquisas de opinião e de mercado invadem quase todos os aspectos de nossas sociedades democráticas e consumistas, K & M efetivam uma crítica à noção de um denominador comum para o gosto e a experiência estética e tensionam os limites convencionais entre o público e o privado – e, no caso do projeto Most Wanted, também entre a arte e a estatística, a cultura popular e a comercial, o kitsch e a beleza. Levantam ainda questões relevantes, que o público de arte e a sociedade em geral muitas vezes falham em fazer: Como seria a arte se tivesse que agradar o maior número possível de pessoas? Há de fato algo antigo como “uma língua universal” da beleza em tudo, ou nós colonizamos inteiramente o multiculturalismo pós-moderno do gosto? E por que a chamada “grande arte” é tão remota para a maioria das pessoas? Esses artistas não oferecem respostas, sugerindo antes que reconsideremos quais questões são importantes. Confrontam o público com uma arte “que confunde”, em que os limites entre real e representacional mostram-se cada vez mais confusos, sugerindo a impossibilidade de um significado ou sentido absoluto e verdadeiro.

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