Brasil[idades] na Bienalle 2009

[originalmente publicado no Rapinante em julho de 2009]

Diz a matéria*: “Dois artistas de fora do eixo Rio-São Paulo foram os escolhidos pelo curador Ivo Mesquita para representar o Brasil na Bienal de Veneza, programada para ser aberta ao público no dia 7 de junho [de 2009]: o fotógrafo paraense Luiz Braga e o pintor alagoano Delson Uchôa. Mesquita, curador da polêmica 28ª Bienal de São Paulo, encerrada em dezembro, confirmou, ontem, à Folha, sua seleção”.
Braga é um fotógrafo muito influente e uma referência importante na cena artística de Belém e do Pará. Sua produção tem forte foco nas paisagens e tipos locais, que captura com maestria. Apesar de produzir há muito tempo, ainda não tem grande visibilidade no eixo Rio-SP, ao menos no chamado circuito da arte contemporânea – talvez inclusive por seu trabalho não ter que ser visto como tal, creio eu, aproximando-se por vezes de fotojornalismo de qualidade.

O mesmo se aplica, em outra escala, a Uchôa, pintor a meu ver excessivamente impregnado de estilemas do cânone popular e do repertório imagético de sua região – o que em princípio não é um problema -, mas aspirando há tempos a uma maior aceitação e visibilidade no já referido “circuitão”. Começou a ganhar destaque com mostra no Ohtake Cultural, há alguns anos, e mais recentemente no Panorama da Arte Brasileira de 2007 e na Paralela 2008, culminando com sua entrada para o time da galeria Brito Cimino [atualmente apenas “Brito”]. Em minha opinião, contudo, ainda há certo descompasso entre o que move sua fatura, suas referências e plasticidade carregada de exotismos e comentários a um repertório regional, e sua circulação “autônoma” no meio da arte contemporânea. Mas isso é apenas uma opinião, talvez nem tão relevante, e de qualquer forma não vem ao caso agora.

O que me chama atenção na escolha dos dois artistas, entretanto – qualidade dos trabalhos à parte, embora este quesito possa ser questionável, especialmente no que se refere a Uchôa – é uma característica eminentemente “brasileira” fortemente presente nas produção de ambos. E afirmo isso com conotação deliberadamente pejorativa, subentendendo um componente de certa “estereotipicidade tropical” que a fotografia de Braga e a pintura de Uchôa apresentam. Um clichê, mesmo. Digo, é mais que natural que ambos, nascidos em regiões de forte impacto da cultura popular e de uma natureza luxuriante incorporem estes dados locais em sua práxis artística; e certamente não estariam sozinhos nesta linha de procedimentos. Basta pensar em nomes de destaque no circuito, como Emmanoel Nassar, Marepe e Efrain Almeida, dentre outros, que logram fazer uso desse elemento regional assimilando-o e articulando-o com mais desenvoltura na constituição de uma plataforma estética autônoma em relação a leituras “regionalistas”.

A questão é que, uma vez arrolados como “a dupla” a representar o Brasil no pavilhão da Bienalle, sua produção oferece, ou arrisca-se a oferecer, pelas citadas qualidades de sintetizar certo ideário “tropical” [não tenho como saber até que ponto deliberada ou involuntária, por parte dos artistas], uma leitura um tanto esquemática na linha “Brazil for export” que tanto apelo desperta no exterior e que tão pouco corresponde à real dinâmica artística em curso no país.

E aí causa estranheza a escolha de Ivo por estes nomes, sendo ele grande conhecedor da arte no país e um especialista em arte da América Latina, e até onde sei desde sempre empenhado em evitar clichês e leituras estereotipadas ou “encapsulantes” desta ordem. Valorizar a arte produzida no Brasil envolve de saída não confundi-la com o rótulo “arte brasileira” [uma abstração ou um construto de mercado, dependendo do ponto de vista], não devendo portanto passar pela reafirmação ou engrandecimento de folclorismos, exotismos ou outros “tipicismos”.

* http://74.125.113.132/search?q=cache:U425AlCoCGQJ:www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u493468.shtml+representa%C3%A7%C3%A3o+brasileira+%22bienal+de+veneza%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br

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