Bienalização

 

por Guy Amado [matéria para a extinta revista Bienart em 2006]

À medida que o número de bienais internacionais de arte contemporânea e outros eventos similares segue crescendo em ritmo desenfreado mundo afora, percebe-se que proceder a um levantamento do espectro total destas mostras se torna virtualmente impossível. De Cuenca, no Equador, a Tirana, na Albânia, passando por Dakar [Senegal], Liverpool, Sharjah [Emirados Árabes], Gwangjiu [Coréia] até Sidney, na Austrália, as quase 50 bienais e trienais internacionais de arte em atividade deixam claro que consistem numa engrenagem cada vez mais ativa do sistema das artes atual – e sua proliferação já tem levantado questionamentos e gerado debates no meio especializado.

O fenômeno das bienais se articula com o interesse, por parte de instituições do meio das artes de todo o mundo desde meados dos anos 1980, em realizar exposições abordando aspectos relacionados a conteúdos culturais e sociais, em sintonia com a intensificação de discussões em torno da problemática da diferença, do hibridismo e da marginalidade. Paralelamente à rápida adoção em escala mundial de noções como universalização e multiculturalismo emerge a necessidade de tornar visíveis novos grupos de artistas, tradições nacionais e temas sociais [embora se constate uma recente tendência, em bienais, à se
leção de artistas e obras em função de temas curatoriais, em detrimento do modelo balizado por critérios de nacionalidade]. Pelo menos uma dúzia de bienais de arte surgiu nos últimos 15 anos, lançadas por países e cidades ansiosos em participar mais ativamente no cenário artístico global ou firmar-se como centros de referência cultural em determinado bloco político ou econômico.

Mas e quanto aos artistas? O que pensam a respeito, e como se posicionam os reais protagonistas destes eventos frente a esse quadro? A propósito da 26ª edição da Bienal Internacional de São Paulo [a segunda em longevidade e prestígio no cenário mundial, atrás apenas da Bienal de Veneza nos dois quesitos], coletamos impressões acerca do fenômeno da “bienalização” de quatro participantes do evento – três estrangeiros e um brasileiro.

A agenda internacional e o tempo no ateliê

Interpelados sobre as implicações dos compromissos impostos por uma agenda internacional mais e mais frenética em seu processo de trabalho, e sobre como encaram o estatuto do ateliê hoje, frente a este estado de coisas, as opiniões variaram: “Produzir para bienais impõe uma dinâmica de trabalho que te toma um tempo maior, em que você tem que comprar mais materiais e mobilizar pessoas […]. Bienais em princípio não vêem com muita simpatia projetos como os que eu realizo, com a pesquisa que ele exige”, afirma Mark Dion, dos EUA. Para o brasileiro Paulo Climachauska, o momento no ateliê e a experiência de expor “são momentos diferentes, interligados mas diferentes; a diferença quando se produz para um evento como a Bienal é que nesse momento o trabalho deixa de ocupar um espaço quase isolado, que é o do atelier, para ocupar um espaço onde ele […] passa a ter uma relação constante com tudo que o cerca, inclusive com a questão institucional, do local onde está inserido”. Heri Dono, da Indonésia, tergiversa sobre a questão da relação artista-estúdio: “Os artistas precisam ter um tempo para trabalhar no atelier, mesmo quando se participa de uma Bienal[…]. A noção de atelier sofreu transformações, não se limita mais àquela associada ao mítico ‘espaço do artista’; o artista hoje carrega parte do atelier na própria cabeça”. No que é endossado por Massimo Bartolini: “Sim, a noção de atelier é de fato alterada por essa dinâmica”. Para o italiano, o estúdio passaria a funcionar “não mais como local de materialização da produção, mas como um laboratório para projetos. Hoje o atelier fica em boa parte do tempo em minha mente”.

Em relação à prática intensificada de soluções site specific em bienais de arte, Dion sustenta que estes procedimentos “só fazem sentido se o conceito do site ‘bienal internacional’, seja ela onde for, for levado em questão, com suas particularidades”, posição que Dono entende de modo mais generalizante: “O artista está sempre tentando ressuscitar de algum modo o espaço. Qualquer lugar serve para o artista, na medida em que ele pode mudar ou alterar o conceito daquele lugar”.

Outra instância advinda da nova ordem da arte é a exigência de uma presença mais constante e intensa, do artista, em eventos de porte – sob o risco de ser esquecido, diante da atual dinâmica volátil de visibilidade neste circuito. A situação é comentada por Climachauska: “Atualmente o artista sofre vários tipos de pressão o tempo todo, o que tende a interferir no seu trabalho; minha posição hoje é a de tentar manter o maior grau de independência possível no meu trabalho,[…] tento conquistar um mínimo de aceitação para o trabalho sem que precise abrir mão de princípios”. Bartolini é menos incisivo, mas lembra que “há que se manter um senso de responsabilidade social”. Heri Dono se vê, enquanto artista, “sobretudo como um mediador. Tento estabelecer um canal de diálogo com as pessoas por meio de meu trabalho[…]. Não me preocupo em ser famoso, mas em dizer algo às pessoas por meio da arte”.

 

O público

Uma instância relativamente desconsiderada quando se fala em bienais é a do público que as freqüenta. Para quem seriam feitas as bienais de arte, afinal? Embora um tópico que talvez devesse ser primordialmente endereçado a quem concebe esses eventos, os artistas se manifestaram sobre a questão segundo seu ponto de vista. “No meu caso, sempre penso no público como parte integrante de meu processo”, afirma Dion. “Gosto da idéia de meu trabalho possuir um grau de acessibilidade a qualquer tipo de espectador. Me interesso por um público não-especializado, não restrito ao artworld“. Bartolini reforça que ainda há muito preconceito para com a arte contemporânea – “e na Itália ele ainda é intenso. E nesse sentido, as bienais – como a de Veneza – acabam se configurando também como uma alternativa a essa situação [como eventos que possibilitam o acesso a esta produção]“. Dono acha que a melhor coisa das bienais é o fato de “serem essencialmente para o grande público[…]. Acho que a Bienal de São Paulo deveria pensar em promover workshops abertos ao público, fazer algo para aproveitar mais a presença de tantos bons artistas envolvidos no evento”.

Além da arte

A influência de fatores por assim dizer extra-estéticos na impulsão do fenômeno das bienais em todo o mundo, como a promoção de valores culturais locais e o interesse de forças de mercado também parece nortear o fenômeno da proliferação das bienais, gerando comentários ácidos dos artistas: “Pessoalmente não me afino com essa idéia de ‘identidades’ ou ‘identificações nacionais’, me parece um caminho errado a trilhar. Não vejo aspectos positivos quando a arte se envolve com nacionalismos[…]. Penso que as bienais encorajam um aspecto espetacular, sensacionalista, que não é o que me atrai em arte”, desabafa Dion. Já Climachauska comenta os dois lados da moeda: “Não acho que a Bienal de São Paulo, por exemplo, deixe de cumprir uma função cultural – de formação, de informação. Acho que nossa Bienal continua sendo um bom momento para confrontar a produção nacional com o que é produzido lá fora”. O artista brasileiro aponta, contudo, uma forte mobilização no Brasil interessada em cooptar o meio das artes pelos mecanismos da indústria cultural, processo no qual as grandes exposições teriam um papel determinante. Cita ainda a Bienal do Mercosul como exemplo de um projeto que visa a legitimação de um conceito sobretudo geopolítico e vê problemas nessa plataforma: “Acho totalmente equivocado criar uma bienal que trate da questão do Mercosul. Acho que a Bienal de São Paulo nunca teve esse limite geopolítico. […] Acredito que a arte tem uma função política, tem mesmo que ‘pisar no mundo'”. Para Bartolini, “o fator econômico está sem dúvida indissociado dessa dinâmica [das bienais]“. Comenta que na Europa – ao menos na Itália – o investimento em arte se dá sobretudo via patrocínio privado, em detrimento do estatal – como aliás também é a tônica no Brasil.

Tema?

Um último aspecto a ser comentado pelos artistas enfocou a crescente tendência de bienais possuírem temas. À indagação sobre esse fator poder se apresentar como um elemento restritivo ao seu trabalho, ou, ao contrário, se traduzir em um estímulo, as opiniões resvalaram no desdém: “Penso que a questão do tema é um problema de curadores, não de artistas; até porque artistas não necessariamente seguem o tema. A arte deve ser livre. No meu caso não faz diferença”, asserta Heri Dono. Já para o artista italiano, “o fato de uma mostra ser temática pode ser bom do ponto de vista do público… Por outro lado, sem o tema as coisas podem ser mais claras, mais simples e diretas. O ideal seria alcançar um meio-termo”. [a propósito, o artista não estava a par do tema desta Bienal] Mark Dion se mostra categórico em relação a esse tópico: “Não sou fã da idéia de se ter temas [em bienais de arte], não me interesso por isso… Me interessa a situação na qual estou envolvido, e não tanto a argumentação da curadoria. Acho ruins casos como o da Bienal do Whitney, onde a título de se representar democraticamente tendências diversas, se força a mão tentando dar representatividade a tudo que está ‘do lado de fora’ da instituição”. E, embora muito aprecie a experiência de travar contato com outras culturas, propiciada por eventos como as bienais internacionais, acrescenta: “Não gosto particularmente de atuar em bienais”. Climachauska lembra que “à exceção das duas últimas edições, que tiveram temas mais fechados em torno de conceitos, a Bienal de São Paulo sempre propôs temas muito amplos, que nunca nortearam efetivamente o sentido da produção que era mostrada. Acho o tema desta edição, ‘Território livre’, absolutamente vago. Por outro lado, a última Documenta [em Kassel, 2002] seguiu o tema [Arte e política] e ficou carregada demais, quase panfletária”. De modo geral faz coro aos colegas: “Ter ou não um tema não altera minha intenção ou postura perante meu trabalho; é algo totalmente indiferente para mim”.

Mark Dion [artista convidado dos EUA. Já teve mostras individuais no MoMA e na Tate Gallery; e integrou eventos como o InSite 2000, a 47ª Bienal de Veneza e a Bienal do Whitney Museum, NY]

Heri Dono [artista convidado da Indonésia. Participou, dentre outros eventos, da 23ª Bienal de São Paulo, 7ª Bienal de Havana, 10ª Bienal de Sidney e 50ª Bienal de Veneza,]

Paulo Climachauska [artista brasileiro. Participou, dentre outras mostras internacionais, da 14ª Bienal de San Juan, 8ª Bienal de Cuenca, 7ª Bienal de Havana e da Bienal BrasilCeará]

Massimo Bartolini [artista convidado da Itália. Integrou eventos como a 48ª Bienal de Veneza, a Manifesta 4, o Site Santa Fe em 1997 e o Aperto da Bienal de Veneza de 1995]

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