Anotações sobre delírios beatniks crepusculares e sonhos febris superpostos

Imagens que se superpõem; a idéia de um “grande momento” em um cenário que parece composto por grandes trigais e extensas pradarias do meio-oeste norte-americano, daqueles dos livros e filmes; tudo fortemente contaminado por um ideário beatnik, ainda fresco em minha mente. O “nosso momento”; nosso grande momento. A conjunção mágica de circunstâncias, construídas a partir de fatores e situações banais, mas aditivada pelo desejo ou pela libido febril. E por certa pretensão ou aspiração ao sublime, o que complica. Mas as referências vão se superpondo e arruínam a ‘hierarquia afetiva’ deste texto – sua pulsão original -, e então me ocorre que Jack Kerouac poderia ser o próprio catcher in the rye, jogando beisebol num campo de centeio [embora ele preferisse futebol americano], nos fundos de um daqueles casarios neogóticos de Hopper ou Grant Wood, em cuja varanda descansa Burroughs, com o rifle no colo, à espera da geração seguinte. Um clichê-síntese, espécie de zeitgeist fabricado e disfuncional para evocar um certo way of life um tanto hibridizado. De uma forma estranha, Faulkner, Thomas Wolfe e Dos Passos – e Wallace Stevens – vêm juntar-se ao panteão menos glamouroso formado por Kerouac, Burroughs, Ginsberg, Ferlinghetti, Corso et cetera, numa fantasmagoria evocativa de uma sintese. Ah, sim, e Salinger, esse eterno beat avant la lettre. Ok, essa parte foi mais aprimorada num contexto pós-sonho, embora permaneça pretensiosamente sem sentido. Mas enfim, era só um sonho, e já tem literatura demais para um ensaio catatônico embalado por uma forte febre.

A americana em seu tônus monumental, a angústia prometida, conquistada e logo suplantada pela “liberdade” – que pode assumir contornos de uma inconveniência necessária e apaixonada na ‘batida’  beatnik [por vezes superestimada], em tempos onde ainda se desconhecia a expressão “desobediência civil”. Mais glamour, menos foco. Como nesse texto. E em algum lugar, em algum momento, ela. Mas pro inferno com essas divagações. Tudo isso era pra ser apenas uma tentativa de fixar uma imagem, a imagem de nosso grande momento que vislumbrei no torpor catatônico – e essa imagem se esvai, como eu sabia que aconteceria, já no sonho. Um pouco como os próprios beatniks, tentando achar frestas – ar – no cenário cambiante da Grande Ilusão Americana. Procurando revelar as brechas, escavar uma realidade alternativa por trás de um mundo de aparências, carente de ser experimentado com a devida intensidade. Não a ser perseguida, mas percebida, ao menos intuída, soçobrante em meio a torrentes de palavras e parágrafos quilométricos. O que antes fora celebração combinada a certa reverência frente a uma tradição incerta dá lugar àquela nova iconoclastia libertina, recheada de silêncios insuportáveis e vazios delirantes. E novamente percebo não me conter e seguir dando vazão a uma algo patética tentativa puramente intuitiva de enquadrar numa imagem fragmentada de clichês pretensiosos uma movimentação contracultural no seio de uma cultura que me é estranha, e que não é a imagem que importa aqui e que teria despertado essa pulsão compulsiva em mim.

Então volto à imagem inicial, a matriz-pretexto para essas anotações delirantes. Envolvia a mim, ela e um automóvel – provavelmente um conversível, para uma maior compatibilidade com o cenário arquetípico do grande sonho [congelado] americano. Havia também canyons, estradas desertas, estrelas, bourbon, a coisa toda. Era arrebatador. Uma vez mais, flertando inadvertidamente com o sublime. O limite para o absoluto, abismo e precipício-precipitador de sensações. Especialmente se o encaramos como uma experiência do absoluto por meio da insuficiência da forma, minha definição predileta desta noção inapreensível. Está tudo ali, em vários registros. A ‘ambientação’ é culpa deste livro, sob cujas páginas adormeci e que me induzira a ter essas visões grandiloqüentes e belamente vazias de significado. Mas ela está presente, e juntos protagonizamos o tal “grande momento” – ainda que involuntariamente jogados no epicentro de uma iconografia que não nos pertence e com a qual não temos por que nos identificar. Mas que é poderosa, e que segue exercendo fascínio a partir de uma combinação sedutora de beleza e ruína, calma e volúpia, redenção e distopia em medidas bem dosadas. E protagonizamos esse momento cientes de tal condição, como se assim nos tranqüilizássemos com a possibilidade de podermos dizer-nos mutuamente, dali a muitos anos, “tivemos nosso momento”. Como se tal possibilidade se bastasse, ou nos bastasse. Como se o registro de apenas uma noite [sonhada?], por mais inesquecível que tenha sido, – ou por isso mesmo – pudesse reter adequadamente a dimensão e a intensidade da experiência. Mas nada disso afeta ou compromete a espontaneidade ou o envolvimento com que nos dedicamos a pertencer um ao outro, enquanto dure aquele momento.

 

P.S.: eu disse ‘imagem’, mas no sonho era mais para cinema, como não podia deixar de ser com tal cenário; imagem em movimento, com planos, campos e contracampos calculados, com um grande travelling de fechamento.

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