O Nome do Jogo [DasArtes 5]

 

A ideia de jogo é freqüentemente invocada no âmbito da arte, pelas muitas analogias e aproximações automáticas que permite articular com o campo desta. Tanto numa atividade como na outra há diversos elementos presentes que convergem para reforçar essa pulsão. Ambos se organizam como sistemas, geridos por determinadas regras, e consistem portanto em atividades estruturadas, ainda que em graus diversos e em aberto.

Dos jogos propriamente ditos, uma associação que me atrai especialmente quando penso em paralelos com a arte, a meu ver inevitável mesmo, é a do snooker – ou sinuca. Trata-se de uma atividade que conjuga aspectos altamente ilustrativos desta aproximação, mesmo quando não se presta tanta atenção a isso. Não por acaso, vários artistas já tematizaram ou se apropriaram da sinuca em propostas diversas, seja por suas possibilidades plásticas como por se mostrarem sintéticas de uma ideia de jogo, dentre outras. Sem pensar muito, é possível lembrar de nomes como Nelson Leirner, Hélio Oiticica, Gabriel Orozco, Man Ray e Sherrie Levine, dentre artistas que já recorreram ao repertório visual  e simbólico da sinuca em seus trabalhos.

Desde a primeira tacada, entra em cena toda uma gama de fatores que parecem bastante familiares à experiência de produzir e/ou refletir sobre arte. Senão vejamos: raciocínio, precisão, erro, destreza, acaso, estratégia, confiança, visão de jogo… e sorte e azar, eventualmente. Está tudo lá. E o estilo. Estilo não exatamente enquanto elegância, tampouco como o controle absoluto sobre a situação; talvez um pouco de cada, mas sobretudo aquele inefável ponto em que poesia, suor e um modo próprio de pertencer àquela experiência se fundem em um jeito de se fazer, uma postura que parece sempre embutir certo grau de intimidade particular com o mundo. Mesmo que seja apenas um jogo.

Uma partida nunca se repete. O colorido das bolas à espera de serem postas para correr sobre sua superfície ativa uma sempre inédita sucessão de ritmos geométricos e cromáticos. Cor, ritmo, movimento, foco, concentração, antecipação. A textura do feltro, a aspereza necessária do giz, a rapidez das tabelas, a variação de peso dos tacos; todos são elementos determinantes no desempenho do praticante. Além disso, tem a temporalidade que é própria do jogo, com suas pausas e silêncios necessários para a próxima tacada. A plasticidade do conjunto é tão involuntária quanto inegável, embora amortecida, para quem esteja envolvido numa partida. Quem melhor capta as nuances formais do jogo é o espectador.

Jogo cerebral, jogo de coração, feito de polaridades: razão e intuição, ataque e defesa, lógica e acaso, ruído e silêncio, erro e acerto se alternam no final do taco. Não descartando a possibilidade de enfrentar uma sinuca de bico, aquela em que não há saída aparente. É o nome do jogo, afinal. E o jogo é jogado. Objetivo? Jogar a próxima, ganhando ou não. De certa forma, não se ganha esse jogo – o jogo ganha sempre. Na vida como na arte, arriscarão alguns, provavelmente com razão – embora aqui seja difícil apontar onde termina um e começa o outro.

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