Ruído manso

 

Recentemente foi anunciado que a 29ª Bienal de São Paulo, a se realizar ainda este ano, irá incorporar um grupo de pixadores como participantes oficiais do evento. O fato imediatamente provocou acirradas discussões, como não podia deixar de ser. Ainda que não se saiba bem em que termos se dará esta participação, tal anúncio não deixa de dar o que pensar. O curador-geral da mostra, Moacir dos Anjos, demonstrou equilíbrio e cautela, ao comentar as razões do convite – que curiosamente se originou a partir de um contato prévio por parte dos pixadores [!], e aliás os mesmos que teriam protagonizado episódio polêmico [bem, talvez menos do que efetivamente foi] ocorrido na edição anterior da Bienal, quando uma pequena turba munida de sprays investiu de modo tão “ousado” quanto anódino contra a estrutura vazia do primeiro andar da Bienal que acabava de inaugurar.

Após frisar que essa iniciativa não possui qualquer caráter “reparador” simbólico em relação ao referido incidente, e que tampouco busca criar instâncias de amortecimento dessa linguagem visual urbana, Moacir enunciou os motivos e interesses que teriam gerado tal aproximação por parte da curadoria. O mote “arte e política”, que dará o tom desta edição da mostra, comporta acepções alargadas que assim poderiam abarcar o pixo. Sobretudo na medida em que este se afigura como linguagem transgressora alinhada à chave do “desentendimento” tal como postulado por Jacques Rancière, com que o curador se identifica, além de onipresente, enquanto fato visual da metrópole. Soa plausível, embora vago.

Os pontos que me chamam a atenção são: o que leva um grupo de pixadores a procurar a instituição Bienal, em primeiro lugar? Um clamor por certo estatuto de artisticidade para sua prática, atraído pelos passos do graffiti, linguagem meio-irmã mas de orientação diversa e hoje com desvairada aceitação comercial, inclusive no circuito da arte? Mera estratégia de promoção pessoal dos envolvidos, talvez um atalho para a visibilidade, mesmo que signifique um desvio completo de sua pulsão primordial? E mesmo sob um entendimento alargado da relação arte X política e do poder legitimatório quase automático que a transposição para um contexto artístico confere a um objeto ou prática mundana, como sabemos; ainda assim, cabe de fato chamar a pixação de “arte”, como sustenta a curadoria desta Bienal?

E finalmente: será realmente possível haver alguma instância de intercâmbio entre as partes sem que se domestique ou comprometa a potência por parte do pixo [e mesmo seu sentido, quando deslocada do contexto natural, com sua agressiva função demarcatório-territorial original, sua codificação e tipologia características], e que se evite simultaneamente uma impressão ou saldo final de tons meramente demagógicos ou populistas, por parte da organização da Bienal? Resta aguardar o empenho da curadoria “em descobrir formas de tratar do assunto com integridade de ambas as partes, sem que instituição e pixadores cedam completamente ao universo da outra”, nas palavras de Moacir dos Anjos. A sugestão de um meio-termo não é lá muito animadora.

 

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