Do diploma de artista

Recentemente, participei de um evento ligado à Unicamp [SP], o Gramatura 32, que me fez pensar, ou repensar, aspectos relativos à formação do artista no sentido formal. A ocasião propiciou uma reflexão em torno do que vejo como o estatuto relativo que um diploma em artes visuais oferece, que desdobro aqui. Afinal, o que exatamente significa “ser formado em artes plásticas [ou artes visuais]”?

Obviamente o ponto não é minimizar a atividade artística ou o papel da universidade em sua formação, muito pelo contrário; certamente a academia pode prover um arcabouço de conhecimentos essenciais ao possível futuro artista, tanto na parte técnica-prática como na teoria. Mas ainda assim, para além do cumprimento dos requisitos curriculares, fica a impressão de que é insuficiente falarmos de um “artista formado” enquanto tal na universidade. Pois esse artista só irá “se formar” de fato posteriormente, no embate com seu trabalho e o desenvolvimento natural de uma plataforma poética, bem como na lida com as estratégias de visibilidade e circulação para sua produção; um aprendizado que só a experiência irá propiciar.

Ao contrário de, digamos, um advogado, um arquiteto ou um economista, o artista formado não tem a perspectiva de inserção subseqüente em um campo profissional compartimentado e já tão pré-definido como o destas áreas. Embora imprecisa e variável, existe uma lógica associativa entre conhecimento recebido e seu rebatimento na aplicação profissional do mesmo; um parâmetro que no entanto parece não abarcar o metiê do/a artista. Se há um segmento em que esta lógica é mais nebulosa, ou menos imediata em sua verificação, é certamente o das artes visuais – juntamente, quem sabe, com a filosofia. O que reforça o relativismo em torno do “artista diplomado”; afinal, sua atividade [ainda] é classicamente associada ao território da subjetividade e do empirismo, como sabemos. Talvez a coisa se resuma em boa parte a uma maior dificuldade do artista em ser reconhecido enquanto profissional quando contraposto à “concretude” objetiva da função de um dentista ou um contador, por fatores diversos mas que são de modo geral intuídos. E a práxis artística, afinal, é avessa ou pouco afeita a mensurações dessa ordem.

De modo geral, ensino formal e conhecimento empírico não se anulam, mas antes se complementam. Mas convém ressaltar que a universidade ensina inevitavelmente embasada em sistemas de convenções e procedimentos, alguns dos quais no devido tempo caberá ao jovem artista saber também desaprender, quando e o quanto necessário. “Desaprender” não enquanto esquecer ou desprezar o conhecimento adquirido, claro, mas entendido como estratégia salutar de descondicionamento e reinvenção, em busca de uma poética própria, movida pela inquietação e comprometimento com a fatura. E, por outro lado, há que se aprender as regras do jogo do grande mundo da arte – se familiarizar com sua dinâmica e lógica interna, suas oportunidades, suas frestas e eventuais atalhos, para então calçar suas expectativas e definir perspectivas pessoais de atuação. Mantendo, sempre que possível, um grau de compromisso com o próprio trabalho.

Originalmente publicado na DasArtes 10

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